terça-feira, dezembro 11, 2007

Grandes Vinhetas # 24
(Dedicada ao David Luiz do Benfica)

Retirado de "As Jóias de Castafiori" (1963) Hergé.

The Waterboys - The Raggle Taggle Gypsy

Pequena aparição no Comboio Azul apenas para desejar que hoje, contra o Besiktas, o Quaresma volte a emocionar-nos com a melodia das suas trivelas.

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terça-feira, agosto 28, 2007

Paris - Paris ou Grandes Vinhetas # 22
(Dia Quatro)

A basílica do Sacré-Coeur, como nós a vimos a 6 de Junho de 2006.

Air - Ce matin la

Juro. Não terei pregado olho mais de meia hora durante a noite passada.
Apesar de ter chegado exausto, a cama alheia, o miar intenso e lascivo dos felinos nas traseiras e o mal-estar generalizado que irradiava do meu estômago e dos meus intestinos mantiveram-me afastado da noite tranquila e bem passada que tanto precisava. Por isso, esta manhã levantei-me exausto para um dia que pretendia longo e cheio, e sem café decente para tomar.
Cambaleei no curto espaço entre o quarto e a sala e sentei-me no sofá vermelho do apartamento. Liguei a televisão e deixei-me ali ficar, pálido, apático e enjoado, a deslizar sem sentido os meus dedos pelo comando, com os olhos semicerrados quase em agonia.
Intempestivamente, um rapaz de fato bem aprumado surgia nos ecrãs da TF1 revelando, em tom dramático, que algo de muito estranho se passava na cidade. A notícia prendeu-me a atenção porque alguns dos locais que desejava visitar surgiam no pequeno ecrã tomados por pequenas inundações que enchiam os seus pavimentos de água. O tom do apresentador era claramente assustado e percebi, no meio de alguma confusão, que o mesmo fenómeno estaria a acontecer em Nova Iorque, Londres e mais uma dezena de cidades pelo mundo fora sem que se compreendesse a origem de tanta água.
Assustado, saio tenso para a rua e esta encontrava-se com uma fina e bizarra camada de água. A gente que por mim passava parecia um pouco surpreendida, mas não excitada ou exaltada, como eu próprio me sentia, aparentando, no meio do incómodo, uma tranquilidade que no meu país seria impossível. De súbito, no meio desta perturbadora calma, eis que alguém mais assustado ventila a notícia que em Jakarta, na Indonésia, ondas gigantes haviam invadido a cidade, causando milhares de mortos.
Tomado por uma ansiedade imensa, desato a correr pela rua fora, sem ideia nem destino, procurando algo que desse sentido a tudo o que estava a acontecer. Ao fundo, surgia o Centro Georges Pompidou onde entrei sem que ninguém me tivesse pedido bilhete. Assim que subia desenfreadamente a manga exterior do edifício para atingir rapidamente o seu topo, ouvi o primeiro estrondo. Aos céus de Paris subia um repuxo enorme que partia dali perto. Fechei os olhos por momentos e continuei a subir. Ao chegar ao topo, vi uma enorme bola de água arrasar a cidade a partir de oeste, perdendo fulgor à medida que de mim se aproximava. Sem tempo para pensar, corri no sentido contrário tentando em vão descortinar a saída. Depois de dois ou três estrondos violentos, a massa de água atingiu o edifício, onde penetrou sem piedade nem misericórdia pelos tubos, salas e corredores. Prostrado, inerte e encharcado, jazia tombado junto às escadas rolantes que continuavam a funcionar.

Retiradas de "Paris Submerso"(2004) Morvan/Munuera.


A baba corria como musgo pelo meu queixo. A noite terrivelmente mal dormida havia-me proporcionado um angustiante pesadelo. À minha frente, o inspector Gadget disparatava na televisão e o comando cinzento da televisão havia escorregado das minhas mãos para o chão.
Levantei-me para beber água e, ainda tonto e nervoso, decidi sair para espairecer um pouco. Fiz bem. Respirei fundo e senti a vida perpassar nos plátanos da avenida, por entre a multidão que se movimentava, veloz e decidida, rumo a qualquer lugar.
E eu? Eu deixei-me ir. Vi montras de cafés decoradas por meia cortina com varão dourado (que eu espreitava com o pudor de um turista), esplanadas cheias de gente a oferecer sorrisos a quem passava, árvores e povo na rua e carros na estrada, uns a irem e outros a virem, tal como na vida.
Acabei o passeio em casa, recomposto e revigorado, para cumprir a promessa de ontem: fazer o meu almoço europeu, longe dos molhos do terrorismo gastronómico do próximo, médio ou longínquo oriente.
Decidi então fazer uma receita que, num final de tarde chuvoso na República Checa, uma italiana de Parma nos havia ensinado – Pasta aglio, olio e gamberetti.
Ora tomem nota: levei um tacho velho ao lume com dois copos de água. Juntei sal, pimenta e cebolinho, orégãos e salsa fresca, assim como um fiozinho de azeite. Quando a água estava a ferver, coloquei a embalagem de camarão congelado. Deixei três minutos a cozer e coei a água, deixando de parte o marisco.
Adicionei ao caldo mais dois copos de água a ferver, e, aí, cozi a massa fresca que havia comprado no dia anterior aos indianos. Depois de a ter escorrido, preparei uma sertã que encontrei no armário com uma fina de camada de azeite, muito (mas mesmo muito) alho esmigalhado, uma folha de louro e uma malagueta. Quando o alho ficou lourinho, retirei a folha de louro e a malagueta e despejei a massa escorrida sobre o azeite. Envolvi muito bem para que se desse uma óptima absorção e finalmente juntei o camarão. Nova mexida e salsa fresca picadinha por cima. Não terá esta sofisticação, é certo, mas soube-me pela vida, podem crer.
Depois de equilibrado o meu sofrido aparelho digestivo, apanhei o metro para a Rua do Odeon, canal privilegiado de acesso aos jardins do Luxemburgo e primeira rua de Paris a ter passeios no século XVIII (como é que me fui lembrar desta…)
Nos jardins deixei-me levar pela leve brisa que por ali corria, e sentei-me numa das muitas esplanadas a apreciar a bonomia do lugar e uma água com gás. Depois de espreitar o lago central, fui dar uma boa gargalhada (para não chorar!) defronte da Fonte de Médicis, a tal que terá inspirado Siza Vieira e Souto Moura para o tanque dos meus Aliados.

A fonte de Médicis, nos jardins do Luxemburgo em Paris, 9 de Junho de 2006.


Ainda que Montmartre já não seja a de Degas ou Picasso, há por ali um bom gosto e um ambiente de tela indescritível, desde a paisagem sublime sobre Paris (que já aqui havíamos fotografado) à textura e plasticidade no encaixe sucessivo dos pequenos edifícios da arquitectura local. Por ali passeei sem demoras e arrebatado até à hora do jantar. Quando o Porto-Sporting começou, já eu estava sentado num restaurante português no West End parisiense. Sobre o jogo, pouco há a dizer. Paulo Assunção é assim uma espécie de semi-deus negro e Lucho um arquitecto de calibre superior a qualquer desenhador de charcos para avenidas empedradas.
No caminho para casa, ainda parei para ver o e-mail num soturno net-café e descobri mais esta pérola que alimentou o sabor doce da vitória de há pouco.
Já a lua ia alta quando rodei a chave do apartamento para me ir deitar. Depois de debelada uma pequena inundação, fruto de uma torneira aberta na cozinha enquanto tomava banho, adormeci a assobiar: “Só eu sei porque não fico em casa”.

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sexta-feira, agosto 24, 2007

Toulouse - Paris ou Grandes Vinhetas # 21
(Dia Três)

A basílica de Saint Sernin em Toulouse, como eu a vi a 10 de Março de 2005.

The Cure - How beautiful you are

Edgar Quinet, Raspail, Denfert Rochereau... O meu corpo oscila ligeiramente, de um lado para o outro, no túnel interminável do metro parisiense. Faltam quatro estações para sair. Dali, Porte d'Italie, são menos de 200 metros para o apartamento que um antigo colega de carteira, ausente em Portugal, me emprestou na Boulevard Auriol: sala, kitchenet, quarto com pequeno WC e vista para as traseiras do quarteirão, onde uma dezena de gatos se estendem durante o dia.
Ontem em Toulouse, entre a Place St Pierre e o hotel ainda decidi dar mais um passeio. Vício antigo de espremer as últimas forças de um dia de viagem, num "best of" do lugar onde estou. Assim o fiz. Da esplanada junto ao Garonne subi pela Rue Valade e desemboquei junto à Basílica St. Sernin. Dizem-me ser um dos exemplares mais interessantes da arquitectura românica no mundo. A torre octogonal prende a atenção de quem passa, mas todo o conjunto é arrebatador.
Esgueirei-me depois pela Rue du Taur, onde o tijolo vermelho, marca indelével da cidade, se impõe de forma verdadeiramente definitiva, sobretudo ao olhar de alguém mais habituado à patine do granito e à moda recente das cores múltiplas do centro histórico.
Ao fundo da rua, na entrada do antigo fórum romano de Tolosa, actual Place du Capitole, um velho sujo e vadio alimentava uma dezena de pombos perdidos, enquanto uns homens vestidos de verde fosforescente e acompanhados por um veículo de limpeza urbana as afugentavam com gestos de desprezo. Num ápice, temendo ser eu também tomado por um pedaço de gente acabada, tomei o caminho do hotel e ao longe ouvia o velho a resmungar: "Ils sont l'âme. Ils sont seuls!".
Também eu, sozinho num mundo encarnado e soturno, acelerei o passo ao som do piar furioso dos pássaros e do eco dos meus sapatos no lajeado. Porém, antes da primeira esquina, deixei o meu pescoço deslizar sobre os ombros e revivi o clássico cinematográfico de Hitchcock. Os homens batiam em retirada perante a fúria da passarada, que os bicavam enraivecidamente, enquanto o velho, só e abandonado, sorria enfim. (Há quem veja nesta péssima alegoria uma antevisão para o clássico do próximo Domingo à noite.)
Na manhã seguinte, apanhei o comboio para Paris. A segurança de ter lugar afiançado para dormir, numa cidade onde já havia estado antes, permitiu-me prolongar o sono matinal e tomar o transporte depois de um croissant e um cafe au lait. Olé.
Os campos de cultivo intensamente trabalhados, em tons de verde e amarelo, sucederam-se na paisagem que entrava pela janela do comboio, desta feita cheio e com uma comodidade a que um português suburbano não está habituado. Aproveitei para coscuvilhar tudo, do depósito de bagagens ao WC, da cabine-restaurante à traseira do última carruagem, onde a porta das traseiras fazia lembrar os velhos westerns.
Cheguei à gare de Montparnasse a meio da tarde e a fome aconselhou-me a comer. Maldita hora! A arquitectura sombria da estação combinada com uma sande de atum com maionese fora do prazo esgotaram o meu bom humor e esventraram o meu estômago.
Dali, parti um pouco enjoado e muito enervado com a comida francesa, tomando o metro que me levaria ao apartamento. Instalei-me e passei um bom bocado no WC. Inspirado pelo ambiente de toillet, lembrei-me do que Black Adder pensava dos franceses: "eating frogs, cruelty to geese and urinating in the street". Decidi então que a próxima refeição seria feita por mim no apartamento, não fosse o diabo (ou o Zidane…) tecê-las!
Mais aliviado, abandonei o edifício e fui até à Place de la Concorde. Se era para me vingar dos franciús, então aquela praça é o sítio certo. Só os franceses se dariam a este luxo... cortar a cabeça a um rei no local onde havia estado uma estátua de seu avô. Hoje em dia, o obelisco de Luxor, assim alinhado com a torre Eiffel e os candeeiros dourados, faz a praça se parecer mais com uma orgia fálica da antiguidade clássica grega do que com uma herança preciosa do urbanismo barroco. Depois espantam-se dos epítetos menos macios que os demais povos europeus atribuem aos franceses e ao tom encardido e “alegre” da sua linguagem.

A place de la Concorde, vista por nós a 9 de Junho de 2006.


Como vêem, a indigestão havia mesmo destruído a minha habitual boa disposição, apesar de já não sentir dores na barriga.
Pior... subi a Rue Royale à procura de umas macaronettes numa pastelaria famosa que cria fila ao fim de tarde em busca dos pequenos biscoitos coloridos. Seguidamente, entrei na neoclássica Madeleine e apreciei o trabalho de Haussman pela Boulevard fora, não sem antes visitar as mostardas da Maille e a diversidade da Fauchon, lojas gourmet incontornavelmente obrigatórias em Paris, até porque estavam as duas tão próximas de mim e da igreja albina de onde saía.
Chegado à Opera de Garnier, e uma vez que o Sol já não constava dos céus de Paris, apanhei o metro para St Germain-des-Prés, onde as esplanadas se enchem ao longo da Avenida e as galerias de arte inauguram as exposições. Pelo meio, entre parfum e glamour, algum canapé acabaria por me cair no colo.
Ainda que a passada tenha sido ligeira, cheguei ao Quartier Latin a horas difíceis de arranjar mesa, por entre os inúmeros restaurantes gregos da Rue de la Huchette, de pratos brancos partidos na entrada e música alta saída dos dedos dos tocadores de bouzoukis.
Esquecido da maionese de Montparnasse, alinhei numa Pita turca com molho de iogurte que definitivamente acabou comigo. Como dizia um antigo anúncio televisivo (ou um adágio popular, sei lá!): “O barato sai caro”.
Antes de apanhar este metro de onde vos escrevo, passei por um pequeno supermercado de indianos onde comprei massa, alho, azeite e marisco com o qual conto amanhã fazer o almoço. Já chega de colocar o destino do meu aparelho digestivo em terroristas gastronómicos.
Antes ainda de sair na estação Porte d'Italie, olho para o turbante do árabe a meu lado e vem-me à ideia uma vinheta memorável de Astérix sobre a Place de la Concorde do princípio da tarde.
Afinal, mesmo sem estômago, ainda vou para casa com um sorriso nos lábios. Ah! Vingança...

Retirado de "Astérix e Cleópatra" (1965) Uderzo/Goscinny.
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Da série "Como comentar diários de viagem" (o que, diga-se, vem muito a propósito dos últimos posts):
Este reparo do lourenço do Complexidade e Contradição, a propósito do soberbo diário de férias do Vasco Barreto, aliás, na continuação desta tirada do Maradona.

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terça-feira, agosto 21, 2007

Grandes Vinhetas # 20
(Dia Zero)

Retirado de "Spaghetti em Veneza" (1964) Attanasio/Goscinny.

Divine Comedy - Europe by Train

Foi no último ano do século passado que fiz a minha primeira (e verdadeiramente única) grande viagem de comboio. Na altura, imberbe tardo-adolescente, visitei um velho amigo que dirigia a associação ELSA e que me viria a receber na sua mansarda em Bruxelas, parte de um edifício ocupado por toda a organização.
Movido pela ideia de emancipação e de aventura (como se ir daqui para Bruxelas de comboio fosse como atravessar os Himalaias...), estreei-me, entre outras coisas, no TGV, nos vagões-cama e na solidão do passeio longe de casa. Recordo as conversas que mantive com um cansado par de emigrantes portugueses que viajavam a caminho de Estugarda, de um entusiástico diálogo com um encenador alemão sobre Gil Vicente e que, depois da conversa, acabaria a trocar carícias incómodas com o namorado no percurso acelerado entre Bordéus e Paris, e do meu encontro com Paco Raban numa esplanada parisiense junto ao Centre Pompidou, poucos dias antes do fim do mundo. No regresso, o turbilhão de acontecimentos foi ainda maior ao não conseguir garantir cama no comboio para a madrugada, pelo que partilhei um compartimento com sete pessoas de cada vez, sobretudo espanhóis e alemães, num corre-corre nocturno, de apitos e portas a bater, estação após estação, em que grande parte da noite sobrevivi com uma alemã a dormir no meu ombro e o pé de um espanhol aterrado no meu colo. O clássico balanço do comboio ao som embalador de tum-tum tum-tum, tum-tum tum-tum, tum-tum tum-tum (muito mais que pouca-terra pouca-terra!) inebriavam a resistência ao sono, apesar do permanente abrir e fechar de porta e da sucessão ardente e alternada, vinda da janela, de luz que invadia o compartimento sempre que a locomotiva parava nas estações, e de escuridão durante os percursos bamboleantes na plana meseta espanhola, da qual guardo o intenso perfume a terra seca.
E é nas vinhetas acima reproduzidas que me revejo a caminho de Bruxelas. Desde miúdo que me imaginava percorrendo o mundo por comboio, motivado seguramente pelas viagens pela Europa que, de há muito, fazia com os meus pais, e provavelmente pela proximidade à linha ferroviária que a minha casa de infância tinha. A leitura de "O Crime no Expresso do Oriente" também terá tido, seguramente, uma enorme importância na aura de mistério até porque o fui lendo durante uma dessas viagens com os meus pais. Recordo-me que lia um capítulo por noite (sem grande surpresa pelo desfecho, até porque já havia visto o fabuloso filme de Sidney Lumet), tendo numa delas a possibilidade de o fazer junto à janela do meu quarto de hotel em Amesterdão, que ficava sobranceiro à dinâmica estação ferroviária, onde pela primeira vez vi comboios de dois andares. Por razões que desconheço, mantenho ainda tatuado na minha memória o comboio azul que vi a passar na densa floresta junto à auto-estrada para Berlim, num tremendo dia chuvoso, ou o elegante comboio bege que cruzou por nós veloz na chegada a Trieste, depois da visita ao cemitério/memorial da I Guerra Mundial junto à encosta com a Eslovénia, e um pouco antes de avistar o anoitecer sobre a baía adriática onde a cidade descansava lá em baixo.
É por tudo isto que estas vinhetas aqui estão, mas também porque depois de 19 era impensável não fazer a vigésima para uma das mais fabulosas e negligenciadas personagens BD. Spaghetti, que surgiu pela primeira vez na revista Tintim criado pela dupla Attanasio (nascido e criado em Milão, mas "belga" desde os vinte anos) e Goscinny (provavelmente, como já alguém um dia escreveu, "o melhor argumentista de sempre de BD") a 16 de Outubro de 1957, é um herói desventurado que vive em fuga permanente do seu primo Pommodoro (no original Prosciutto!), que o vai metendo, história após história, em alhadas hilariantes. Os textos sensacionais e o desenho apurado combinam a aventura (com letra minúscula!) com doses intermináveis de humor, graças ao espírito italiano dos dois primos, entre o desenrasca malandro, o engatatão fracassado e o instável pessimista, permitindo amiudadas vezes um retrato de humor ácido sobre a mentalidade mediterrânica de desdém e gabarolice, mas também de humildade e generosidade. Veja-se, no lado mais negro, o comentário do maquinista (nas vinhetas acima) que desconhecendo o pandemónio que vai no comboio comenta: "... enquanto nós estamos para aqui a trabalhar, os passageiros têm a sorte de poderem descansar em sossego" ou o aborrecido turista que aparece em Veneza e Paris dizendo: "Não vale a pena vir ao país deles para ver coisas que nós fazemos melhor no nosso, do que eles no deles!".
Em Portugal apenas seis dos mais de vinte álbuns originais foram editados em português (se exceptuarmos as publicações em revistas), sendo que dois deles são de acesso particularmente difícil: "Spaghetti na feira" e "A vida dupla de Pomodoro", ambos publicados pela, há muito defunta, editora Íbis, na longínqua década de 70.
As vinhetas acima (que estão por ordem cronológica, mas não são consecutivas) são retiradas de uma das mais brilhantes histórias de Spaghetti que começa precisamente com a primeira vinheta acima, em que a personagem central como sempre tenta escapar à amizade de seu primo, arranjando emprego como hospedeiro de um comboio que se dirige para Veneza. Ao descobrir que o quarto número 13 pertence a Pommodoro, o caos instalar-se-à no comboio, terminando tudo à pancada. Na manhã seguinte, os viajantes descem para a plataforma veneziana com olhos negros e braços partidos, e Spaghetti é demitido e forçado a aturar Pommodoro que o envolverá numa trama que inclui detectives, quadros roubados e muitos banhos escusados nos canais de Veneza.
Decidi com estas vinhetas dar o mote para uma viagem de férias convosco. Por motivos que agora não interessa aflorar, este ano não partirei para longe da minha cidade e por isso usarei o blog para encetar uma viagem imaginária. Mas para o comboio não partir apenas com o maquinista, convido-vos a saltarem da plataforma para cá para dentro, dando disso conta na caixa de comentários onde venderei os bilhetes. Amanhã partiremos e já não dormimos no Porto. Agora só cá voltamos lá para Setembro.
De hoje em diante, o Comboio Azul avançará mesmo. Venham comigo!

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quarta-feira, agosto 08, 2007

Grandes Vinhetas # 19
(Continuação do rodapé do post O Douro bebe as cores da cidade)

Retirado de "Os 4 Ases e a Taça de Ouro" (1967) Craenhals/Chaulet.

The Cure - Boys Don´t Cry

Bem sei que não acreditarás Daniel, mas apenas hoje vi esta vinheta pela primeira vez. Terás de concordar que é um enorme apoio para a minha causa... já em 1967, ano do lançamento do marcante You only live twice e apenas 5 anos após o pioneiro Dr. No, Georges Chaulet havia criado para a série 4 Ases uma personagem chamada Van Bond, inspirada seguramente no agente britânico, a quem é atribuído o epíteto de "O Espião Intocável" pelos inspectores Baleote e Dumafiga, precisamente durante um festival de cinema.
Originalmente, os 4 Ases foram pensados para funcionarem em romance e não em BD, muito ao estilo de "Os Cinco". Aliás, os 4 Ases são na verdade um quinteto, uma vez que a Lástico (o líder e herói físico do grupo), a Dina (a bela e vaidosa personagem do quarteto), a Doc (o intelectual) e a Bola (o imenso comilão) é imperioso juntar Óscar, o pequeno cão dos quatro amigos que se assemelha fisicamente a Milou e Ideiafix. Mas em 1962, os seus dois autores, François Craenhals no desenho e Georges Chaulet no argumento (que, sublinhe-se, distinguiram-se muito para além desta série), propuseram à Casterman a sua adaptação ao formato de banda desenhada.
Ainda que, aqui e ali, um tanto ou quanto infantil, sobretudo quando comparada a Ric Hochet ou Tintim, a combinação do talento dos dois autores proporcionou belos momentos de animação ao longo da segunda metade do século XX, estando neste momento com quarenta e três livros editados (o último dos quais em Maio de 2007), tendo a colecção sobrevivido inclusivamente à morte de um dos seus criadores, o desenhador belga, e ao abandono da série por parte do escritor francês. Na actualidade, a série mantém o traço muito semelhante ao original (agora da responsabilidade de Alain Maury), combinando a arte que crescia a partir da década de 50 nas revista Tintim e Spirou com o clássico traço da animação mais ameninada, sobretudo na personagem feminina, Dina, espécie de herdeira dos desenhos de Marcel Marlier para a Anita.
Ou seja, Daniel, depois de eu ter sugerido "007 - O Homem intocável" como título e a Untouchable dos Rialto como banda sonora, este pedaço da história da BD praticamente encerra o Fabuloso Passatempo de Verão b-site/melofobia, uma vez que a vitória parece incontornavelmente atribuída.
Mas como nesta coisa de concursos e de júris nunca se sabe, faço ainda mais uma sugestão para essa listagem das Bond songs. Apesar da canção necessitar de uma actualização, talvez incorporando alguma componente tecnológica que lhe incutisse um tom mais electrónico e enchesse os espaços sonoros vazios, julgo que a eterna Boys Don't Cry (1979), dos míticos Cure, seria uma óptima Bond Song, provavelmente para o filme "007 - Os homens não choram", através de uma possível versão dos Placebo. Estes 2 minutos e 42 segundos de música New Wave (ou pós-punk, como lhe queiram chamar) foi, como para muitos dos nascidos nos 70s, uma das mais importantes canções da minha mocidade, e, ainda hoje quando a ouço, o velho adolescente descabido, ingénuo e imberbe assola por aqui.
E por aqui me fico, até porque estou seguro da minha imensa vitória, graças obviamente a esta Grande Vinheta e ao espírito de Dragão azul e branco que tenho em mim desde o tempo em que ainda nem conhecia a Boys Don´t Cry.
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Assino por baixo estes 4 textos: Free from it all / I'm not gonna change, no Complexidade e Contradição; este sem título, no Abencerragem; Vai!, no Avatares de um Desejo; e Meninos de ouro, no Pobo do Norte.

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quarta-feira, agosto 01, 2007

Grandes Vinhetas # 18
(Post tremendamente pretensioso)

Retiradas de "O gás do Kuko Jomon - As Aventuras de Spirou e Fantásio" (1970) Fournier.

Tindersticks - For those...

Terminou, há duas semanas, a publicação semanal de vinte títulos da série “As Aventuras de Spirou e Fantásio”, numa parceria do jornal Público com a Asa. No meio dessa bela listagem figuravam 9 livros inéditos em Portugal que, necessariamente, aguçaram a atenção de todos os coleccionadores da série, tornando por vezes a espera pela quarta-feira desesperante. As vinhetas acima fazem parte de um dos álbuns que, pela primeira vez, foram editados em português, ainda que com cerca de 37 anos de atraso para a versão original.
Não sendo um álbum brilhante (longe disso!), "O Gás do Kuko Jomon" combina um argumento razoavelmente interessante com a qualidade inquestionável do desenho de Jean-Claude Fournier, sucessor de Franquin na liderança da série por sugestão deste ao editor Delporte, que na altura (1968) chefiava a Revista Spirou. Franquin (de quem já falamos por exemplo aqui ou aqui) abandonaria de vez a série para se dedicar a Gaston Lagaffe (que também já teve direito a figurar na minha lista das Grandes Vinhetas, aqui e aqui) e a Marsupilami, ambos criados ainda durante o "Período de Ouro" de Franquin à frente das histórias de Spirou e Fantásio.
E, sobretudo por isso, Fournier merece todo o respeito dos leitores de Spirou porque, apesar de nunca ter atingido o brilhantismo dos álbuns de Franquin, conseguiu manter a série num nível elevado (embora, aqui e ali, um pouco ecológica e moralista em excesso) depois de esta ter visto partir aquele que tinha transformado o "repórter vestido de paquete" numa referência mundial da BD, durante as década de 50 e 60. Para além disto, e à excepção do primeiro livro de Fournier na série – “O Fazedor de Ouro”, Marsupilami e Gaston Lagaffe não mais puderam ser utilizados no enredo, uma vez que Franquin guardou os direitos das personagens e levou-os consigo para novas paragens. E é neste contexto, tentando criar novas figuras que ultrapassassem o carisma das duas já referidas, que Fournier cria por exemplo Itoh Kata, o cientista japonês que colide com o Conde de Champignac nas vinhetas acima, (também ele criação de Franquin mas que, ao contrário de Marsupilami e Gaston, continuará a fazer parte do enredo), numa postura educada das duas personagens, mas com resultados dolorosos.
É certo que as vinhetas não são particularmente inspiradas, tanto no desenho como na criatividade argumentativa, mas vieram-me imediatamente à cabeça na sucessão de comentários deste quiz que brilhantemente (a parte do pretensioso…) triunfei no Womenage A Trois.
Ao mesmo tempo, como os Tindersticks faziam parte do quiz e os seus ouvintes costumam ser bastante pretensiosos, lembrei-me de oferecer esta canção ao meu amigo Linear P, que foi quem primeiro ma deu a conhecer, há muitos anos atrás, numa versão ao vivo no Bloomsbury Theatre (e, obviamente, apesar de seres um fiel dos Tindersticks, não fazes parte dos pretensiosos!). Na altura, encantei-me de imediato pela canção que, naquela fase da banda de Nottingham, costumava ser a última dos seus concertos. Durante muitos anos procurei a versão original sem sucesso (e tantas vezes incomodei o Linear P para a arranjar...), vindo recentemente a descobri-la como B-side do single Marbles, de Março de 1993.
Aproveito ainda para enviar um abraço do tamanho do Atlântico para o meu amigo Tiago que, em Rochester, acaba de dar mais um passo na sua caminhada para Ministro das Finanças deste cantinho da Europa. Esperamos por ti!!!!

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sábado, julho 28, 2007

Grandes Vinhetas # 17

Retirado de "Humpá-pá - Missão Secreta" (1960) Goscinny/Uderzo.

The Thrills - One Horse Town

Antes da criação de Astérix para a revista Pilote em 1959, Goscinny e Uderzo haviam já criado 3 heróis. Tudo havia começado quando casualmente foram colocados lado a lado na delegação de Paris da World Press em 1951, despoletando uma das duplas mais profícuas e cativantes da BD da segunda metade do século XX.
Dessas três personagens, de pouco sucesso sublinhe-se, a mais popular foi Humpá-pá, um nativo americano dos Sávanás, sempre acompanhado do seu amigo Humberto da Massa Folhada, oficial francês incessantemente de peruca branca.
A trama decorre no século XVIII, durante a colonização francesa da América, nunca atingindo porém o brilhantismo, o humor e sobretudo a popularidade de Astérix, Obélix e companhia, ainda que o traço de Uderzo mantenha a qualidade que o celebrizou ao longo da série daqueles que “apenas temem que o céu lhes caia em cima”.
Mas, como os últimos álbuns de Astérix com Uderzo a solo o provam (desde a morte de René Goscinny a 5 de Novembro de 1977), o sucesso da irredutível aldeia gaulesa residia sobretudo na assinatura de Goscinny, que conferia ao texto o ritmo inebriante e a trama irresistível que fizeram de Astérix e Obélix ícones de gerações atrás de gerações, nas últimas cinco décadas, um pouco por todo o mundo. E esse ritmo, esse encadeamento de episódios hilariantes na sua riqueza contextual ou no mais puro gag Chapliano, assoma também com frequência nas aventuras de Humpá-pá, justificando em absoluta a sua leitura em bibliotecas ou a compra em alfarrabistas, nas edições da Livraria Bertrand ou da Meribérica/Liber. Sem jamais deixar de caricaturar as duas formas de estar, leia-se índios nativos americanos versus sociedade francesa setecentista, Goscinny (auxiliado pelo grafismo vivo e familiar de Uderzo) aproxima os dois pólos antagónicos com a imensa e fiel amizade entre Humpá-pá e Humberto da Massa Folhada, mas, ao mesmo tempo, com as inúmeras confusões e mal-entendidos que a sobreposição dos dois contextos acaba por criar.
As duas vinhetas acima, retiradas de um álbum que faz parte de uma trilogia (Piratas/Missão Secreta/Contra os Maus-fígados), foram originalmente publicadas na incontornável Revista Tintim em 1960 e apresentam uma dessas infindáveis barafundas entre as duas realidades, no caso aplicada à língua ou, melhor dizendo, à forma de se expressarem as duas personagens.
E é nesta dialéctica, da diferença e do contraste, que os dois mundos se aproximam, sem bons nem maus colectivos, mas com boas e más sementes em ambas as margens do oceano.
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Leituras:
1 - Sobre o tema: "Fusão Porto/Gaia", ler
este texto do Taf no A Baixa do Porto e este do Pedro Olavo Simões no Fonte das Virtudes.
2 -
Este post do Carlos Romão, no Cidade Surpreendente.
3 -
Este tratado no De Rerum Natura, de Palmira F. Silva.
4 -
Esta descoberta no Solas na mesa.
5 -
Todos os textos do *

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sexta-feira, julho 20, 2007

Grandes Vinhetas # 16
(Adenda a Grandes Vinhetas #15)

Página alterada da versão escandinava de "Tintim no Congo", feita por Hergé a pedido dos seus editores locais.

Morrissey - National Front Disco

"(…) O outro resultado tangível do processo foi a oferta - na já cansativamente habitual bandeja perfumada - de munições aos guerrilheiros anti-sistema, os tais patrulhadores dos patrulhadores que tanto irritam o Comboio Azul e que tanto me irritam a mim, e que rejubilam à menor oportunidade para fulminar a «tirania do politicamente correcto», que, de resto, se assemelha cada vez mais à caricatura imbecil que dela fazem.."
Rogério Casanova (2007) Pastoral Portuguesa

Quando escrevi o post Grandes Vinhetas # 15, a propósito da (recente, mas não mais que reeditada) polémica em torno do álbum "Tintim no Congo", desde logo imaginei (e sobretudo desejei) que um coro de assobios se lhe seguisse. Enganei-me. Recebi apenas dois comentários com um "concordo, mas...", precisamente de dois dos bloggers que mais admiro: o Francisco Curate e o Pedro Olavo Simões. Eu bem me meti com o André Azevedo Alves, o Miguel Portas, o Victor Abreu, o João Távora e o Pedro Guedes, correndo praticamente todo o espectro político, arriscando, nestas coisas dos consensos, acabar como o patinho feio. Mas, nem assim. Ninguém me ligou pevide.
Acabou por ser o improvável Rogério Casanova, do mítico Pastoral Portuguesa, a anunciar que não tinha gostado "mesmo nada deste [desse] post".
A justificação, grande em todos os sentidos, parte de um pressuposto: sou um homem de certezas. Lamentavelmente, Rogério, não o sou. Aliás, aproveitando o sub-título da Pastoral Portuguesa, "I am [too!] learning how not to feel strongly about anything". Mais, tenho para mim que esse tem sido o grande ensinamento que venho recebendo desde que abandonei a adolescência (ainda que, um dia, há alguns anos atrás, alguém me tenha acusado de ser um adolescente tardio...). Cada vez tenho mais dúvidas e menos certezas.
Mas o pressuposto justifica-se. Comecei o texto com um arreliador: "Não tenho dúvidas". Na verdade, e julgando que tinha deixado isso claro no texto, a única certeza que tinha era que "Tintim no Congo" é o pior álbum de Hergé (e até sei que tu, Rogério, alinhas nisto comigo). No resto, o texto é uma antítese da primeira frase. Dúvidas a rodos.
O Rogério disserta depois sobre a inflação que nota nas minhas palavras "racista, desumano e cruel". Por momentos julguei que havia cometido um erro entre muitos. Pensei logo em me refugiar no tardio das horas a que escrevo ou então, pura e simplesmente, teria que aceitar que havia caído no erro que tantas vezes aponto e que até agora julgava abominar: também eu pertenço à malta que vê discriminação em tudo o que mexe. O Rogério socorre-se do dicionário. Racismo é uma "«doutrina que tende a preservar a unidade da raça e assenta na suposta superioridade de uma raça que se confere o direito de exercer domínio sobre as outras», e também como «hostilidade face a um grupo étnico diferente»". Ora, julgo não estar muito para além das capacidades hermenêuticas de ninguém percepcionar que o álbum "assenta na suposta superioridade de uma raça que se confere o direito de exercer domínio sobre as outras".
Exemplo? O episódio do comboio na página 20 da Verbo. Para quem não possui a obra, fica a descrição: Um comboio descarrila porque o carro de Tintim fica preso nos carris. Tintim ordena aos passageiros que o voltem a pôr nos carris. Estes, de lábios grotescamente inchados, revelam pouca vontade para o trabalho. "Eu estou muito fatigado", responde um deles. "Mas... Mas... Vou sujar a mim", replica um outro de colarinho, gravata, punhos, mas sem camisa. A cena termina com um africano a comentar com outro: "O siô branco ser muito esperto". Mas atente-se à vinheta em que Tintim, com expressão facial irada, pergunta: "Então? Todos ao trabalho! Não têm vergonha de deixar este cão trabalhar sozinho?" No meu entender, esta vinheta contém a maior dose de racismo (isto já vai em doses... Não tenho mesmo juízo). Milou (o tal que acabará por ascender a rei dos pigmeus!) empurra a locomotiva sozinho e pensa/ladra: "Vamos, bando de mandriões, toca a empurrar!" Enquanto isso, Tintim mantém-se em postura supervisora, deixando a Milou e aos africanos o trabalho e limitando-se a vociferar umas ordens. O Rogério chama-lhe "sobranceria colonial". Para mim, "assenta na suposta superioridade de uma raça que se confere o direito de exercer domínio sobre as outras".
Depois, o Rogério penetra num debate muito interessante que resumidamente pode ser apresentado sob esta forma: "Se o «Tintim no Congo» deve sair da estante dos mais novos, então não deveriam muitas outras sair também?" Ora, Rogério, essa é precisamente a demanda do meu post. A dificuldade em definir a fronteira. E essa definição não é tão clara e fácil de traçar como os "patrulheiros dos patrulheiros" quiseram passar.
Deste o belíssimo exemplo de Astérix. Julgo que ninguém duvida, apesar de tudo (e da tua leitura das camadas de significado), na diferença entre a violência de Tintim no Congo e de uma qualquer obra de Astérix (e mesmo de Wild E. Coyote!). Em nenhum momento, e sem querer entrar em questões ligadas à morte (que nunca acontece aos romanos), ou às experiências funestas com animais (apesar dos javalis de Obélix), repito (pareço o Malheiro, Deus me livre!), em nenhum momento, Astérix tem "sobranceria colonial", e mesmo a relação com os romanos, com os javalis ou a padronização frequente de espanhóis, ingleses, portugueses, e por aí fora, é seguramente menos violenta (ou melhor, nem sequer há violência) que todas as cenas cruas de "Tintim no Congo", que enunciei no post que despoletou este nosso debate. Aliás, se assim não fosse, porque é que os editores escandinavos (dos países dos cartoons que escandalizaram o Islão!) pediram a substituição daquelas 4 tiras pelas que coloco na imagem acima? (a propósito, já as conhecias?)
Assim como, e perdoa-me nova e clara inflação, mas aproveitando a deixa das comparações, o "Tintim no Congo" é ideologicamente menos radical que "Mein Kampf" ou menos violento que "American Psycho". Podemos incluir estes dois na estante infanto-juvenil?
Sobre o meu aplauso à solução final encontrada, pareceu-me um mal menor. Seguramente que tanto barulho criado pela CRE foi um tiro no pé e, tal como escrevi, pareceu-me radical e desmesurado, contribuindo inclusivamente para uma maior propaganda da obra. Agora, a partir do momento em que o barulho estava feito e a promoção indirecta também, as livrarias tomaram uma posição defensiva, mas, ainda assim, bem melhor que a fogueira de livros (tão querida do autor de "Mein Kampf"), a proibição da reedição do livro ou como a página que acima reproduzi mostra, reescrever a história e a estória, como acabou de certa forma por se repetir com o cigarro de Lucky Luke.
Aproveito, por isso, (até porque, apesar de não teres gostado mesmo nada do meu post, eu gostei muito do teu e parece-me que estamos mais próximos que afastados no tema) para respigar o fim perfeito da tua prosa: "Falsificações do passado, por menor que seja a escala, e por mais benignas que sejam as intenções, nunca melhoraram o futuro de ninguém. Sobre isto, pelo menos, tenho muito poucas dúvidas". Eu também.

Adenda à adenda:
1 - No "A Memória Inventada", Vasco Barreto colocou a página do episódio do comboio que referi acima. A preto e branco e em francês.
2 - Assim de repente, como seria de esperar, a lista dos "patrulheiros dos patrulheiros" aumenta. Mais textos para o consenso: no Nonas, no Escrita Casual, no Nêspera, no Holocausto, no Briteiros, no A interpretação do tempo, no O Povo e no Tascuscopos.

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terça-feira, julho 17, 2007

Grandes Vinhetas # 15
(Para maiores de 18 anos)

Retirado de "Tintim no Congo" (1931) Hergé.

Billy Bragg - Sexuality

"(…) Incapaz de dominar-se, baixou a cabeça, tomou-o entre os lábios húmidos, enrolou-o na boca, humedeceu-o com a saliva quente e pareceu nunca mais se cansar da brincadeira."
Guy de Maupassant (1880) As sobrinhas da viúva do Coronel.

Não tenho dúvidas. O álbum "Tintim no Congo" é seguramente o pior momento da obra de Hergé. E diga-se, não sou só eu que o acho... o próprio acabou por o definir como "um pecado da juventude".
O álbum é, de facto, péssimo. Racista, desumano e cruel, se o virmos pelo prisma da sensibilidade humana contemporânea, mas também tonto, desinteressante e errático, no que diz respeito à qualidade do enredo, e até sensaborão, insípido e desacertado no que ao desenho se refere. Mas então, porque é que escolho esta vinheta?
Como consequência da notícia sobre a decisão britânica da passagem do álbum das prateleiras dos mais novos para a secção de adultos, após protesto da Comissão Inglesa pela Igualdade Racial (que se refere ao livro desta maneira: "O único lugar aceitável para um produto destes é num museu, mas com um grande anúncio ao lado a dizer «Treta racista e retrógrada!»"), uma série de reacções de repúdio surgiram na net, da direita à esquerda, lembrando a popularidade do álbum no Congo e apelando à contextualização da obra.
Certo. A obra é de 1931 e reflecte a colonialismo em marcha, consequência do exacerbamento dos nacionalismos, que duravam desde finais de XIX, e que acabarão por redundar ainda na II Guerra Mundial.
Concordo. A obra terá uma enorme aceitação na África Francófona, demonstrando que estes não se intimidam com as claras referências racistas (bem mais que paternalistas, como já vi por aí escrito).
Mas, sinceramente, não entendo o incómodo que a todos criou. Não acham natural que uma Comissão pela Igualdade Racial se manifeste contra um livro racista? Para quem não leu a obra, a vinheta acima julgo ser suficiente. Tintim pergunta a uma turma de crianças negras quanto é 2+2 e não obtém resposta, mesmo depois de insistir (coisa que aliás continuará a fazer em vinhetas posteriores, sempre sem sucesso). Noutras vinhetas, Tintim deparar-se-á com a preguiça de um conjunto de negros, com erros sucessivos na oralidade e superstição extrema, com a subida de Milou ao trono dos pigmeus, com a mesquinhez na disputa por um chapéu e com a estupidez pela solução final, e por aí fora. Aliás, o rol seria muito maior não fossem as correcções de Hergé de 1946 para a versão colorida, em que, por exemplo, o traficante de animais para os zoos europeus deixa de ser negro para ser um branco.
No meu entender, todas estas razões seriam suficientes para a retirada do livro da estante dos mais novos. Para estas realidades, da violência, discriminação e racismo, já chegam as imagens e as palavras que os noticiários vomitam sem contenção, a qualquer hora do dia, para todos os públicos, incluindo o mais jovem.
Mas, lamentavelmente, a extensão da crueldade do álbum não termina no racismo.
Ao longo das cerca de 60 páginas de “Tintim no Congo”, Tintim age como um verdadeiro bárbaro grosseiro, matando indiscriminadamente animais atrás de animais. E, se nalguns casos mata ou fere em legítima defesa (como um tubarão, um crocodilo, uma cobra e um macaco para salvar Milou), noutros a morte é vista com um certo prazer ou envolvida numa piada de mau gosto, como quando pontapeia um macaco e um leopardo (ou o faz engolir uma esponja e lhe dá de beber para esta dilatar), quando mata um elefante para lhe retirar o marfim, quando mata quinze veados por julgar se tratar sempre do mesmo, quando mata um bisonte à pedrada por vingança, ou, finalmente, quando faz explodir um rinoceronte enchendo-lhe a carapaça de dinamite. Esta última cena é de tal forma brutal que, há alguns anos atrás, quando ainda Hergé era vivo (e ele faleceu em 1983), ela foi completamente alterada para a Escandinávia, a pedido da sua editora local, que considerava a cena demasiado bárbara para o público nórdico.
Hergé, numa famosa entrevista a Numa Sadoul, justifica-se desta forma: "eu estava cheio dos preconceitos do meio burguês em que vivia... Era 1930. Eu não conhecia desse país a não ser o que as pessoas contavam na época: «Os negros são crianças grandes... felizmente para eles, nós estamos lá! Etc.» E desenhei-os, os africanos, segundo estes critérios, com o mais puro espírito paternalista, que era o da altura na Bélgica".
No final de contas, tudo bem.
Hergé retratou-se e apontou o livro como "um pecado".
A Comissão fez o que devia. Lutou pelo que acredita, ainda que pareça radical e desmesurado, sobretudo a quem cresceu tendo como amigo-a-quem-tudo-se-perdoa Tintim.
A livraria Borders e a Waterstone's, que tomaram a iniciativa de mudar a obra de secção, também estiveram bem. Tendo o bom-senso de não proibir a obra, alteraram a classificação da mesma, permitindo aos adultos que a queiram consultar e comprar de o fazer. Mas, uma vez que o livro tem cenas claramente excessivas e, pior que isso, coloca como vilão (perante os valores ecológicos e de igualdade contemporâneos) aquele que deve ser o herói, símbolo de toda a valentia na defesa de causas nobres e humanas, as livrarias libertaram as crianças de encontros, desilusões e modelos errados que a obra poderia proporcionar.
É por isso que eu gostaria de saber se, aqueles que consideram esta posição um acto de "puritanismo politicamente correcto", a mando de "sinistros patrulheiros da correcção política", ou os que os confundem com "os maus que queimavam os livros", acham bem que as obras de Guy de Maupassant (reconhecido autor francês da segunda metade de XIX, amigo de Flaubert e Zola), onde se encontram excertos como o que coloquei em epígrafe (e, como devem saber, fui brando na escolha!), também deveriam fazer parte da secção infantil das livrarias.
Bah! Deixemo-nos nós de puritanismos liberais.

P.S. - Gostava de ter escrito esta linha da canção: "I had an uncle who once played for Red Star Belgrad."

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sexta-feira, julho 13, 2007

Grandes Vinhetas # 14

Retirado de "Michel Vaillant - Irish Coffe" (1986) Jean Graton.

Catatonia - Road Rage

Sempre que perspectivei a inclusão de Michel Vaillant na série Grandes Vinhetas, nunca julguei que esta fosse a escolhida. Na minha ideia, a escolha recairia incontornavelmente no n.º 1 da colecção, editado na longínqua década de 50 - "O grande desafio" (1959). Para uma grande parte dos fãs, e também na minha opinião, esse álbum, tão distante no tempo, é de facto de eleição e provavelmente o melhor dos 70 já editados (o último dos quais lançado na passada segunda-feira!). Tem lá tudo o que o autor, Jean Graton, costuma oferecer a rodos: emoção e qualidade no desenho. Mas para além disso, contém, no traço e no ritmo, a espontaneidade e a imaginação natural de quem começa uma carreira que se viria a revelar brilhante, ainda que, por vezes, determinados álbuns se tornem um pouco repetitivos, dada também a limitação temática. Mas para além da frescura e novidade que esse álbum trazia, é aí que pela primeira vez conhecemos Michel, Jean-Pierre e restantes membros da família Vaillant, e também Steve Warson, o enfant terrible de grande parte das histórias, eterno amigo desbragado do herói, que aí o conhece e defronta.
A saga da família de construtores e pilotos de F1 não começa, contudo, com o referido primeiro álbum. Ela inicia antes, nas páginas da revista Tintin (Graton, curiosamente, já havia trabalhado para a rival Spirou), como aliás grande parte da BD de qualidade, em 1957 (2 anos antes de "O grande Desafio") com uma pequena história de apenas quatro pranchas com o título "La 24ème heure".
Jean Graton, que entretanto passou toda a responsabilidade do trabalho para o seu filho Phillipe desde 1994, havia sido fortemente influenciado por seu pai, comissário do "Club Motocycliste Nantais", que o levou em tenra idade a ver as 24 horas de Le Mans. É aliás num álbum dedicado a esse evento que devo a minha iniciação nas histórias da família Vaillant: "O fantasma das 24 horas"(1970), oferecido pelo meu pai em 1980.
Hoje, contudo, espicaçado pelo que aqui havia escrito, decidi centrar-me neste "Irish coffee" e em particular na vinheta acima reproduzida.
Desde logo, o álbum é atípico. Michel e Steve praticamente não aparecem durante todo o livro, remetendo para estrela principal Henri Vaillant, pai de Michel e mentor do império Vaillant. Henri é, desde o primeiro álbum, uma espécie de guia conselheiro dos dois filhos a quem, em tempos que já lá vão, passou o testemunho da Vaillant: a Michel, piloto n.º 1 da marca, a emoção e a correcção nas pistas; a Jean-Pierre, cérebro por trás da empresa, a força e empenho na direcção da fábrica e da equipa.
Mas para além dessa alteração de protagonista, a história não se desenrola em torno de um campeonato de F1 ou de uma qualquer corrida de autódromo, mas num remoto lugar da Irlanda, Connemara, onde uma corrida anual de carros antigos tem lugar desde 1924. A vinheta retrata os momentos antes da partida, revelando o intenso conhecimento de Graton de todo o ambiente em torno das corridas e dos momentos que as antecedem (que se desvenda aliás álbum após álbum), assim como a sua habilidade imensa no desenho ultra realista das máquinas antigas ou na criatividade e talento intermináveis na criação de novos veículos de design arrojado.
Depois de uma fase um pouco desinteressante das Aventuras de Michel Vaillant (que, tirando algumas honrosas excepções, durava desde 1980), este Irish Coffee, de 1986, abriu um novo caminho para a série, que se vinha a revelar um tanto ou quanto repetitiva, por vezes forçada e excessivamente fantasiosa, tornando-se a partir de então mais criativa e alargando as suas fronteiras, espacial e temporalmente.
O mesmo aliás espero para o portuense Circuito da Boavista. Enquanto dado incontornável, que se transforme pelo menos em motor de desenvolvimento da cidade e da região, sem atropelar, com isso, todo um conjunto de elementos patrimoniais, quer naturais quer humanos, nem que faça esquecer, por parte da autarquia, outros eventos tão ou mais importantes que a corrida de calhambeques.

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segunda-feira, abril 09, 2007

Grandes Vinhetas # 13

A primeira vinheta com Gaston Lagaffe, publicada a 28 de Fevereiro de 1957, na revista Spirou..

REM - The Sidewinder Sleeps Tonite

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quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Grandes Vinhetas # 12
(celebração de São Valentim)

Retirado de "A Estrumpfina" (1967) Peyo.

Perfect Lovesong - Divine Comedy

Give me your love
And I'll give you the perfect lovesong
With a divine Beatles bassline
And a big old Beach Boys sound
I'll match you pound for pound
Like heavy-weights in the final round
We'll hold on to each other
So we don't fall down

Give me a wink
And I'll give you what I think you're after
With just one kiss I will whisk you away
To where angels often tread
We'll paint this planet red
We'll stumble back to our hotel bed
And make love to each other
'Til we're half dead

Maybe now you can see
Just what you mean to me

Give me your love
And I'll give you the perfect lovesong
Give me your word
That you'll be true to me always come what may
Forever and a day
No matter what other people may say
We'll hold on to each other
'Til we're old and grey


Para ti! (mas pintaremos o planeta de azul e branco...)
__________

Ventos do Norte:
-
Este post do André Moura e Cunha, no In Absentia.
-
Esta crónica de Jorge Maia, no Jornal "O Jogo".
-
Este post pelo Álvaro, no Portogal.

- A ler também a série "Especial Dia dos Namorados" (
1, 2, 3, 4), no 31 da Armada.

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Grandes Vinhetas # 11
(adenda de Grandes Vinhetas #10)

Retirado de "O Raio Misterioso" de "As Aventuras de Joana, João e do Macaco Simão", do original em francês publicado no jornal "Le Petit Vingtième", de 6 de Janeiro de 1938.

Do you remember the first time? - Pulp

Nos comentários ao post anterior, R. Castro Ferreira, do Solas na Mesa, levanta uma questão interessantíssima: se a Brooklyn Bridge figura na fotografia publicada no Crapouillot, de Outubro de 1930, e na vinheta retirada de "A Erupção do Karamako", porque é que ela não figura na de "Tintin na América"? Diz ainda o Ricardo: "Será que encontramos uma falha do mestre ou apenas um capricho de artista?"
A resposta é difícil, muito difícil.
Vamos por partes. Nos mesmos comentários levantei duas hipóteses:
1 - A Brooklyn Bridge, sendo um objecto de leitura dominantemente horizontal (ainda que um ícone da cidade de Nova Iorque), retiraria o impacto vertical que Hergé desejava para a referida vinheta. Ou seja, Hergé desejava claramente simbolizar, através de um último olhar de Tintin, à medida que o barco se afasta em direcção ao continente europeu, a urbanização voraz do capitalismo americano em contraste com a enorme planície oceânica. Irónica e possivelmente de forma intencional, os próprios edifícios parecem um gráfico de barras à boa maneira dos estudos financeiros de uma empresa americana.
2 - Hergé desejava acentuar a insularidade de Manhattan e afirmar o abandono do continente americano, enquanto Tintin iniciava a sua viagem transatlântica. A ponte acabaria por deixar ao leitor a imagem visual de continuidade, inadequada ao propósito referido.
No caso de "As Aventuras de Joana, João e do Macaco Simão", Hergé não tem necessidade de sublinhar estas questões uma vez que, ao contrário do que acontece em "Tintin na América", os Legrand (pais) estão a chegar ao continente americano e os Estados Unidos não são vistos como o inimigo capaz de tudo por dinheiro, mas o lugar onde ansiosamente a sua filha os espera.
Julgo que estas razões serão suficientes para justificar a ausência da ponte na dita vinheta.
Mas, ainda assim, resolvi espreitar a versão original de "A Erupção do Karamako". Esta fazia parte da história "O Raio Misterioso" que foi publicado entre 1937 e 1938, no jornal "Le Petit Vintième". E, curiosamente e para meu espanto, a Brooklyn Bridge também é aí omitida (ainda que o plano pareça cortar o extremo da ilha)!
Terá sido então "falha do mestre", como aventou o Ricardo?
Julgo que nunca saberemos. Mas, de facto, o álbum contém algumas incongruências: os volantes nos automóveis estão do lado direito (Hergé terá assumido que os EUA teriam importado a postura britânica) e as cenas de cowboys no velho oeste parecem pouco consentâneas com a década de 30 do século XX, onde a acção se desenrola. A história viria a ser redesenhada, como praticamente toda a obra, mas neste caso por razões ligadas a um certo espírito colonialista em torno dos afro-americanos, absolutamente claro em todo o livro.
É por isso que, a afirmação que fiz no post anterior, em que defendi que a "cuidada apresentação da realidade, somada a um certo tom melodramático e crítico sobre a opressão sobre os mais fracos, acaba, na minha opinião, por enquadrar Hergé e a sua obra no movimento neo-realista de meados do século XX", deve ser entendida, não nos seus primeiros anos de trabalho no "Le Petit Vingtième", mas no período pós II Guerra Mundial, depois da paragem forçada pelo conflito e pelos ataques que sofreu por suposta (e, ao que tudo indica, falsa) ligação aos nazis (tendo sido detido inclusivamente por 4 ocasiões por grupos anti-nazis, no caótico período do pós-guerra).

P.S. - Infelizmente, não tive oportunidade de colocar o original a preto e branco da vinheta de "Tintin na América", mas fica aqui a promessa de o fazer assim que seja possível.
___________

Mais uma resposta ao repto que aqui lancei para descreverem o vosso golo de sonho vestidos de azul e branco, a juntar ao João Saraiva, ao Aníbal Letra, ao André Moura e Cunha, ao Ricardo Castro Ferreira e ao Michael Knight:
- a do Guarda Abel, no Pobo do Norte. Um golo perfeito, sempre em movimento e com pronúncia argelina, "no campo de futebol do Carolina Michaëlis, (...) com vista para a Igreja da Ramada Alta". Obrigado, caríssimo!

E, já agora, mais uns para o dito desafio:
- A malta portista do Nortadas, como o Diogo Feyo, o José Gagliardini Graça ou o Francisco Velozo Ferreira.
- O Fitzx, do Cromos da Bola.
- O Ricardo, do Apatia Geral.
Toca a participar!

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terça-feira, fevereiro 13, 2007

Grandes Vinhetas # 10
(adenda em Grandes Vinhetas #11)

Retirada de "A Erupção do Karamako" (1952, 1.ª edição 1936-38) Hergé.

Retirado de "Tintin na América" (1945, 1.ª edição 1932) Hergé.

Fotografia de Manhattan, publicada no jornal Crapouillot, Outubro de 1930.
(Fonte: Farr, Michael (2001) "Tintin - O sonho e a realidade").

America is not the world - Morrissey


Certo dia, no ano de 1935, o director do jornal Coeurs Vaillants - Father Courtois - propôs a Hergé a criação de uma personagem com o ritmo e a qualidade que ele havia concebido em Tintin, herói da obra que Courtois seguia atentamente desde há 6 anos, após a sua criação no Le Petit Vingtième.
Courtois, contudo, não apreciava a independência e a falta de valores clássicos em Tintin, uma vez que este não ia à escola, não tinha mãe, irmãos, nem pai que trabalhasse para o sustento da casa.
Foi assim que surgiram as "Aventuras de Joana, João e do Macaco Simão", obra que, contrariamente a todas as outras séries de Hergé, não nasceu de uma iniciativa pessoal do autor belga.
Talvez por isso não seja de estranhar o relativo insucesso da série em todo o mundo (Hergé abandonou-a no final da década de 50) e o profundo desconhecimento da série em Portugal, apesar de ter sido recentemente reeditada pela Verbo. Hergé, mais preocupado em expurgar os seus medos, sonhos e frustrações, as suas memórias e vivências pessoais em Tintin, acabou por desenvolver apenas 3 histórias (que se transformaram em 5 álbuns) para os irmãos Legrand - João e Joana - filhos de um laborioso engenheiro de aeronáutica e de uma devota dona de casa, e sempre acompanhados pelo fiel Simão, macaco de estimação. Será, aliás, esta limitação criada pela família padronizada pelos valores ocidentais que tornará injustificável a participação dos irmãos Legrand em aventuras longínquas, arriscadas e perigosas, ao contrário do solitário Tintin, sempre pronto a partir para qualquer destino.
Ainda que longe do brilhantismo de "As Aventuras de Tintin", com tramas melhor urdidas, histórias mais complexas e um traço mais cuidado, as "Aventuras de Joana, João e do Macaco Simão" são ainda assim peças de enorme qualidade, não só porque se sente a assinatura do mestre belga em cada vinheta e em cada balão, como se desvendam as relações com os livros do repórter Tintin, nos estudos que Hergé fazia para cada tira, aplicando a sua obsessão pela extrema precisão dos pormenores. De certa forma, essa cuidada apresentação da realidade, somada a um certo tom melodramático e crítico sobre a opressão sobre os mais fracos, acaba, na minha opinião, por enquadrar Hergé e a sua obra no movimento neo-realista de meados do século XX.
Para que se constate esse perfeccionismo na transição da documentação que Hergé catalogava com ardor, basta contrastar as duas vinhetas acima reproduzidas, das edições a cores dos álbuns "A Erupção do Karamako" (2.ª parte da primeira história das "Aventuras de Joana, João e do Macaco Simão" - "O Raio Misterioso") e “Tintin na América” (de "As Aventuras de Tintin"), com a fotografia de Manhattan (encontrada na documentação de Hergé), publicada no jornal satírico Crapouillot, em Outubro de 1930, num número especial de crítica acérrima ao capitalismo sedento dos Estados Unidos da América, que criava instantaneamente skylines como o de Nova Iorque e tornava decadentes os índios autóctones, que Hergé tanto admirava.
____________

Continuam a chegar respostas ao repto que aqui lancei para descreverem o vosso golo de sonho vestidos de azul e branco, a juntar ao João Saraiva, ao Aníbal Letra e ao André Moura e Cunha:
- do Ricardo Castro Ferreira, no Solas na Mesa, encarnando o mítico Eurico e apelando a uma nostalgia pelo futebol dos anos 80. Como te compreendo. Ainda me recordo das chuvadas imensas que apanhava, de mão dada com a minha madrinha, no gélido, duro e desconfortável betão das Antas. Que saudades!
- do Michael Knight, no Renteria Mejor Amigo. Um post divertidíssimo, num blogue curioso, na saga do Adriaanse Best Friend. Excelente participação ainda que, por lapso, não o tivesse incluído na listagem inicial. Agora, aguardo o do MacGyver e o de todos os que quiserem participar!
____________

E ainda:
1 - Este texto é dedicado ao meu caríssimo amigo Paulo de Sousa, do Linear P, por
esta lembrança, esquecida no fundo de uma das suas riquíssimas gavetas, de tempos que já lá vão.
2 - Não deixem de espreitar
esta denúncia do Carlos Romão no incontornável "A outra face da Cidade Surpreendente". Coincidentemente, cruzei-me com o Carlos no preciso momento em que produzia esse post. Eu estava acompanhado por turistas franceses que também "deram com o nariz da porta". Enfim...

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domingo, fevereiro 04, 2007

Grandes Vinhetas # 9
(exercício para exorcizar o resultado desta noite)

Retirado de "Gaston - O gigante do disparate" (1972) Franquin.

Goal, Goal, Goal - James

"Obviously one must hold oneself responsible for the evil impulses of one's dreams. In what other way can one deal with them? Unless the content of the dream rightly understood is inspired by alien spirits, it is part of my own being."
Sigmund Freud

Não há muita banda desenhada de qualidade que se envolva no futebol ou, a que há, é demasiado infantil ou mal executada para poder ser apreciada pelos mais velhos ou os mais exigentes. É por isso que, tal como no post anterior, estas pequenas pérolas do Maradona da BD - Franquin - são tão valiosas.
Obviamente, a vinheta acima é apenas parte de um saboroso sonho. E digo obviamente porque quem conhece o marcador do golo, Gaston Lagaffe (nascido a 28 de Fevereiro de 1957, no n.º 985 do jornal "Spirou"), sabe que estamos, pura e simplesmente, perante o maior dos desastrados e que, sempre que entra num recinto desportivo, são maiores as probabilidades de um golo na própria baliza do que na baliza do adversário.
Nos pontapés que vou dando ocasionalmente na bola, julgo não ser tão desajeitado como este anti-herói, mas infelizmente não navego em águas tão longínquas das do Gaston Lagaffe, como tanto gostaria. É por isso que, desde miúdo, e tal como a personagem de Franquin, imagino-me a marcar golos aos adversários do meu clube, em posturas tão elegantes como impossíveis para os meus dotes físicos, tal qual as que Gaston fantasia na vinheta reproduzida.
De todos os meus sonhos futebolísticos, o maior, aquele que me persegue há uma vintena de anos, é o de marcar, vestido de azul e branco, em pleno Estádio da Luz. Tantas vezes sonhei com esse momento utópico, que detalhei os 90 minutos na minha cabeça, durante os momentos escuros e solitários da minha meninice, mesmo antes de adormecer, noites e noites a fio.
Com um estado de tempo enevoado, marcado pela chamada morrinha (para os que não são do Porto - chuva miudinha), o jogo decorre ao princípio da noite. Eu jogo na clássica posição seis, conhecida, de há uns anos para cá, por trinco, cortando braviamente os lances de ataque do adversário que nos pressiona com insistência (na década de 80, quando íamos jogar a Lisboa, isto acontecia com frequência. Agora é o que se sabe). O árbitro já me tinha avisado que não podia ter a camisola por fora dos calções, e eu insistentemente voltava a colocá-la de fora assim que podia, num estilo muito Soren Lerby (deste, não sei se haverá muita gente a lembrar-se...).
Por volta dos 60 minutos, o extremo direito do Porto (na altura, Jaime Magalhães) inicia uma jogada rápida pela direita, que deixa o Benfica em contra pé, e cruza tenso para a área, sendo a bola rechaçada por um central do Benfica (seria o Mozer?), um tanto atabalhoadamente, para o seu meio campo.
Aí, vindo rápido de trás, e com apenas um toque, controlo a bola e preparo o pontapé para o meu pé direito, que dispara violentamente ao canto superior esquerdo da baliza, sem hipóteses de defesa para o guarda-redes benfiquista (Bento?).
Em câmara lenta, um sorriso invade a minha cara assim que começo a ouvir o silêncio profundo do estádio, apenas interrompido pela pequena claque azul e branca, criando um desequilíbrio perturbador. Em posição errática, mas aerodinâmica e com o resto da equipa atrás de mim, corro em direcção à claque do Benfica com o punho em riste, em clara postura de desafio (não escapando a uns isqueiros que me acertam sem dor), e termino a longa corrida junto aos entusiásticos adeptos do Porto, agarrado à vedação onde a pequena falange de apoio me acarinha e celebra enlouquecida o golo.
Nessa altura, em minha casa, os meus pais, irmã e madrinha vibram com o que ouvem no Quadrante Norte, enquanto o mítico Gomes Amaro, ao som da eterna melodia: "Que bonito é, as bandeiras tremulando, a torcida delirando, vendo a rede balançar", grita "É Golo! Goooolo! Um «tiro» fulminante! Ah sim! Este rapaz é o melhor centro campista europeu!!", com aquela pronúncia que adocicava cada jogo do meu Porto de infância.
Acabo assim por ter melhor sorte que Gaston. O meu sonho termina, adormecendo com o doce sabor da vitória, enquanto Gaston é acordado com um amargo grito de Prunelle (o seu superior): "Lagaffe! Você é o pior empregado de escritório do mundo!"

Proponho aos seguintes indefectíveis portistas, que leio atenta e diariamente porque têm dos melhores blogues portugueses, que coloquem nas suas moradas, onde e como marcaram o seu golo de sonho vestidos de azul e branco (como somos tantos, qualquer dia organizamos uma futebolada):
- Pedro Olavo Simões, da Fonte das Virtudes.
- Francisco José Viegas, de A Origem das Espécies.
- Bruno Sena Martins, do Avatares de um desejo.
- Paulo Costa, do Bisca dos Nove.
- André Moura e Cunha, do In Absentia.
- Rui Curado Silva, do Klepsýdra.
- Tiago Barbosa Ribeiro, do Kontratempos.
- Manuel Jorge Marmelo, do Tatarana.
- Guarda Abel, do Pobo do Norte.
- Aníbal Letra do FêCêPê: Orgulho e Glória
- João Saraiva, do Óculos Azuis e Brancos.
- R. Castro Ferreira, do Solas na Mesa.
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Nota:
De facto,
Pedro, não há pachorra!

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quarta-feira, janeiro 31, 2007

Grandes Vinhetas # 8

Retirado de "Os ladrões de Marsupilami" (1954) Franquin.

Three Lions - Lightning Seeds

"Tout ce que je sais de plus sûr à propos de la moralité et des obligations des hommes, c'est au football que je le dois."
Albert Camus

Nunca fui rapaz de drogas nem de álcool, o que me deixa entre os poucos da minha geração que nunca se sentiu embriagado nem "passado". Não é por isso de estranhar que uma grande parte dos momentos de verdadeira euforia que vivi na minha vida tenham sido no futebol.
Tenho a sorte de, desde muito pequeno, sentir intensamente o meu clube, que por acaso é aquele que, por uma larga margem, maior número de vitórias e de troféus venceu durante as pouco mais de três décadas que tenho de existência. Recordo-me do estado de entusiasmo desenfreado que a vitória de Sevilha (vivida no calor insuportável do estádio olímpico da capital da Andaluzia) ou a vitória de Gelsenkirchen (numa aventura a solo que terminou a dois) me deixaram, para além de muitos outros momentos, talvez menos importantes para a história do clube, mas muito importantes para mim e para os restantes adeptos do Porto porque significaram vitórias sobre as equipas da capital, numa provável reminiscência tribal.
É claro que há muito de irracional no meio daquilo tudo. Basta lembrar o exemplo dado por Jerry Seinfeld no célebre episódio "The Label Maker" quando Jerry se interroga sobre o que verdadeiramente apaixona os adeptos: "Loyalty to any one sports team is pretty hard to justify. Because the players are always changing, the team can move to another city, you're actually rooting for the clothes when you get right down to it. You know what I mean, you are standing and cheering and yelling for your clothes to beat the clothes from another city. Fans will be so in love with a player but if he goes to another team, they boo him. This is the same human being in a different shirt, they *hate* him now."
De facto, retirando significado ao vestuário desportivo (imbuídos nas cores e nos emblemas, por exemplo), tudo aquilo parece de loucos. Aliás, se nos lembrarmos da revolta de Nika, que opôs, no longínquo ano de 532, os adeptos da equipa azul e da equipa verde, que se defrontavam em corridas de carros puxados por cavalos no hipódromo de Constantinopla, e que colocou a cidade a ferro e fogo durante uma semana, perceberemos que tudo isto está muito mais no nosso sangue do que imaginamos.
A verdade é que o futebol não é só rivalidade, mas também união, alegria e emoção. Aliás, a própria revolta de Nika acabou com as duas facções unidas contra o poder. E não foi Woody Allen que um dia disse que, entre a arte e o desporto, escolheria sempre o desporto porque o fim era sempre uma incógnita?
A qualidade de um jogador, independentemente de tudo o que o possa rodear, pode apaixonar de tal forma o público que a sua camisola pouco importará (no meu caso, recordo-me por exemplo de Timofte, mesmo quando passou para o Boavista!). De certa maneira, é precisamente isso que acontece na fantástica sequência de vinhetas (de que a tira acima reproduzida é apenas uma pequena parte), onde Spirou e Fantásio, através do traço mágico de Franquin, descobrem o talento futebolístico daquele que havia roubado o corpo (aparentemente morto!) de Marsupilami, o estranho animal de longa cauda que os dois heróis haviam descoberto no álbum anterior, "Os Herdeiros".
O mais apaixonante dessa sequência, toda ela desenhada com um engenho extraordinário, é que, não só Spirou e Fantásio, mas também o próprio leitor, acabam por se afeiçoar a Valentim Mollet (o jogador/ladrão) através das suas fintas e dos seus memoráveis golos, percebendo-se imediatamente que alguém com tamanho talento , apesar de ser o responsável por semelhante malfeitoria, não poderia ter em si toda a maldade. Aliás, como o resto do álbum comprovará.
É por esta e por outras que não aceito que sempre que se fala de Maradona na televisão, o tema seja a sua queda no mundo da droga ou o estado deplorável em que ele se tem encontrado. O que devia ser emitido com alguma assiduidade (bendito Youtube!) eram as jogadas fantásticas que o argentino realizou no Boca Juniors, no Barcelona, no Nápoles ou na selecção do seu país.
Qualquer um facilmente snifará uma linha de coca.
Alguém dificilmente marcará de novo um golo semelhante a este.
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Notas:
1 - Já devem ter reparado que os posts anteriores deixaram de ter a canção disponível. Problemas com alojamento... de qualquer forma, a partir de Domingo estarão novamente disponíveis.
2 - Três posts de fãs de BD:
Este do Pedro Correia, no Corta-Fitas; este outro do Francisco Curate, no nosso velho conhecido Daedalus; e ainda este do André Abrantes Amaral, no Observador.

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sábado, janeiro 20, 2007

Grandes Vinhetas # 7

Retirada de "Obélix e companhia" (1976) Goscinny & Uderzo.

Hit Song - Peter Murphy

Para o meu grande amigo Tiago Duarte Silva que, desterrado em Rochester, passa hoje o seu aniversário longe de casa, da família e dos amigos. Vê lá se resolves esses estudos de Finanças depressa, para regressares rapidamente. Ofereço-te uma canção que tantas vezes ouvimos juntos há alguns anos atrás e uma vinheta apropriada de um álbum que ironiza com o capitalismo desenfreado da Roma Clássica, onde até um menir atinge um valor de mercado impensável, através da acção do tecnocrata Caius Saugrenus, caricatura de Jacques Chirac.
Um abraço do lado de cá do Atlântico.

Hit Song

Walking in the street
Breath the only friend
Strangers pass me by
I'm moving, moving with the wind
Inside me now, the gold
The gold at rainbows end
Stranger to myself, a stranger
Stranger till the end
Behind the closed door
The one we painted green
To remind me of the perfect plan

Wash my face in fields of green
Take me to the stars for free
Point me to the high wire call
Wake me true and wake me all

Walk me in the streets
Take me, to a view on high
To an empire state
Tease, tease and bake me dry
Swerve and turn on me
Melt me, melt me to the wall
Like an unspeant fortune, I'm running
Running with the call
Behind the closed door
The one we painted green
To remind me of a perfect plan


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A ler:
1 - A excelente
resposta de Ivan Nunes, no A Praia, ao que se tem dito de Scoop e também ao que eu aqui havia escrito.
2 - Sou leitor assíduo do
Inépcia há bastante tempo. Para quem não conhece, a visita é indispensável. Entre outras notícias sensacionais, o autor (a mítica personagem "Renato Carreira") dá-nos conta da surpreendente vitória de Vítor Paneira no Concurso "Grandes Portugueses" ou o facto de o Irão negar a extinção dos dinossauros. Um must!
3 - No incontornável Kontratempos, o texto "Ainda o concurso e Mário Soares", esta
hilariante notícia no suíço Le Matin Blue e, em particular para o meu amigo Nuno Calheiros, a memória desta entrevista a Álvaro Cunhal.

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