quarta-feira, janeiro 31, 2007

Grandes Vinhetas # 8

Retirado de "Os ladrões de Marsupilami" (1954) Franquin.

Three Lions - Lightning Seeds

"Tout ce que je sais de plus sûr à propos de la moralité et des obligations des hommes, c'est au football que je le dois."
Albert Camus

Nunca fui rapaz de drogas nem de álcool, o que me deixa entre os poucos da minha geração que nunca se sentiu embriagado nem "passado". Não é por isso de estranhar que uma grande parte dos momentos de verdadeira euforia que vivi na minha vida tenham sido no futebol.
Tenho a sorte de, desde muito pequeno, sentir intensamente o meu clube, que por acaso é aquele que, por uma larga margem, maior número de vitórias e de troféus venceu durante as pouco mais de três décadas que tenho de existência. Recordo-me do estado de entusiasmo desenfreado que a vitória de Sevilha (vivida no calor insuportável do estádio olímpico da capital da Andaluzia) ou a vitória de Gelsenkirchen (numa aventura a solo que terminou a dois) me deixaram, para além de muitos outros momentos, talvez menos importantes para a história do clube, mas muito importantes para mim e para os restantes adeptos do Porto porque significaram vitórias sobre as equipas da capital, numa provável reminiscência tribal.
É claro que há muito de irracional no meio daquilo tudo. Basta lembrar o exemplo dado por Jerry Seinfeld no célebre episódio "The Label Maker" quando Jerry se interroga sobre o que verdadeiramente apaixona os adeptos: "Loyalty to any one sports team is pretty hard to justify. Because the players are always changing, the team can move to another city, you're actually rooting for the clothes when you get right down to it. You know what I mean, you are standing and cheering and yelling for your clothes to beat the clothes from another city. Fans will be so in love with a player but if he goes to another team, they boo him. This is the same human being in a different shirt, they *hate* him now."
De facto, retirando significado ao vestuário desportivo (imbuídos nas cores e nos emblemas, por exemplo), tudo aquilo parece de loucos. Aliás, se nos lembrarmos da revolta de Nika, que opôs, no longínquo ano de 532, os adeptos da equipa azul e da equipa verde, que se defrontavam em corridas de carros puxados por cavalos no hipódromo de Constantinopla, e que colocou a cidade a ferro e fogo durante uma semana, perceberemos que tudo isto está muito mais no nosso sangue do que imaginamos.
A verdade é que o futebol não é só rivalidade, mas também união, alegria e emoção. Aliás, a própria revolta de Nika acabou com as duas facções unidas contra o poder. E não foi Woody Allen que um dia disse que, entre a arte e o desporto, escolheria sempre o desporto porque o fim era sempre uma incógnita?
A qualidade de um jogador, independentemente de tudo o que o possa rodear, pode apaixonar de tal forma o público que a sua camisola pouco importará (no meu caso, recordo-me por exemplo de Timofte, mesmo quando passou para o Boavista!). De certa maneira, é precisamente isso que acontece na fantástica sequência de vinhetas (de que a tira acima reproduzida é apenas uma pequena parte), onde Spirou e Fantásio, através do traço mágico de Franquin, descobrem o talento futebolístico daquele que havia roubado o corpo (aparentemente morto!) de Marsupilami, o estranho animal de longa cauda que os dois heróis haviam descoberto no álbum anterior, "Os Herdeiros".
O mais apaixonante dessa sequência, toda ela desenhada com um engenho extraordinário, é que, não só Spirou e Fantásio, mas também o próprio leitor, acabam por se afeiçoar a Valentim Mollet (o jogador/ladrão) através das suas fintas e dos seus memoráveis golos, percebendo-se imediatamente que alguém com tamanho talento , apesar de ser o responsável por semelhante malfeitoria, não poderia ter em si toda a maldade. Aliás, como o resto do álbum comprovará.
É por esta e por outras que não aceito que sempre que se fala de Maradona na televisão, o tema seja a sua queda no mundo da droga ou o estado deplorável em que ele se tem encontrado. O que devia ser emitido com alguma assiduidade (bendito Youtube!) eram as jogadas fantásticas que o argentino realizou no Boca Juniors, no Barcelona, no Nápoles ou na selecção do seu país.
Qualquer um facilmente snifará uma linha de coca.
Alguém dificilmente marcará de novo um golo semelhante a este.
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Notas:
1 - Já devem ter reparado que os posts anteriores deixaram de ter a canção disponível. Problemas com alojamento... de qualquer forma, a partir de Domingo estarão novamente disponíveis.
2 - Três posts de fãs de BD:
Este do Pedro Correia, no Corta-Fitas; este outro do Francisco Curate, no nosso velho conhecido Daedalus; e ainda este do André Abrantes Amaral, no Observador.

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2 Carruagens:

Blogger solas_na_mesa said...

A propósito do Timofte lembro-me de ele marcar um golão nas Antas pelo Boavista e o publico portista se levantar todo a bater palmas. O próprio jogador ficou surpreendido e agradeceu num momento que ficou no baú das minhas boas recordações de tardes passadas nas Antas. O jogo em causa não era a feijões e caso o Porto vencesse era campeão nacional (o que se veio a confirmar, naturalmente hehe).

quinta-feira, fevereiro 01, 2007 12:02:00 da tarde  
Anonymous js said...

é em dias como o de hoje, que me pergunto por que raio sou abstémio, sempre dava para afogar as mágoas.
Assim resta-me andar pela net a ler estes bons posts e a snifar um bocado da "droga" que também me tem dado os melhores momentos de euforia da minha vida.

domingo, fevereiro 04, 2007 12:48:00 da manhã  

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