terça-feira, agosto 28, 2007

Paris - Paris ou Grandes Vinhetas # 22
(Dia Quatro)

A basílica do Sacré-Coeur, como nós a vimos a 6 de Junho de 2006.

Air - Ce matin la

Juro. Não terei pregado olho mais de meia hora durante a noite passada.
Apesar de ter chegado exausto, a cama alheia, o miar intenso e lascivo dos felinos nas traseiras e o mal-estar generalizado que irradiava do meu estômago e dos meus intestinos mantiveram-me afastado da noite tranquila e bem passada que tanto precisava. Por isso, esta manhã levantei-me exausto para um dia que pretendia longo e cheio, e sem café decente para tomar.
Cambaleei no curto espaço entre o quarto e a sala e sentei-me no sofá vermelho do apartamento. Liguei a televisão e deixei-me ali ficar, pálido, apático e enjoado, a deslizar sem sentido os meus dedos pelo comando, com os olhos semicerrados quase em agonia.
Intempestivamente, um rapaz de fato bem aprumado surgia nos ecrãs da TF1 revelando, em tom dramático, que algo de muito estranho se passava na cidade. A notícia prendeu-me a atenção porque alguns dos locais que desejava visitar surgiam no pequeno ecrã tomados por pequenas inundações que enchiam os seus pavimentos de água. O tom do apresentador era claramente assustado e percebi, no meio de alguma confusão, que o mesmo fenómeno estaria a acontecer em Nova Iorque, Londres e mais uma dezena de cidades pelo mundo fora sem que se compreendesse a origem de tanta água.
Assustado, saio tenso para a rua e esta encontrava-se com uma fina e bizarra camada de água. A gente que por mim passava parecia um pouco surpreendida, mas não excitada ou exaltada, como eu próprio me sentia, aparentando, no meio do incómodo, uma tranquilidade que no meu país seria impossível. De súbito, no meio desta perturbadora calma, eis que alguém mais assustado ventila a notícia que em Jakarta, na Indonésia, ondas gigantes haviam invadido a cidade, causando milhares de mortos.
Tomado por uma ansiedade imensa, desato a correr pela rua fora, sem ideia nem destino, procurando algo que desse sentido a tudo o que estava a acontecer. Ao fundo, surgia o Centro Georges Pompidou onde entrei sem que ninguém me tivesse pedido bilhete. Assim que subia desenfreadamente a manga exterior do edifício para atingir rapidamente o seu topo, ouvi o primeiro estrondo. Aos céus de Paris subia um repuxo enorme que partia dali perto. Fechei os olhos por momentos e continuei a subir. Ao chegar ao topo, vi uma enorme bola de água arrasar a cidade a partir de oeste, perdendo fulgor à medida que de mim se aproximava. Sem tempo para pensar, corri no sentido contrário tentando em vão descortinar a saída. Depois de dois ou três estrondos violentos, a massa de água atingiu o edifício, onde penetrou sem piedade nem misericórdia pelos tubos, salas e corredores. Prostrado, inerte e encharcado, jazia tombado junto às escadas rolantes que continuavam a funcionar.

Retiradas de "Paris Submerso"(2004) Morvan/Munuera.


A baba corria como musgo pelo meu queixo. A noite terrivelmente mal dormida havia-me proporcionado um angustiante pesadelo. À minha frente, o inspector Gadget disparatava na televisão e o comando cinzento da televisão havia escorregado das minhas mãos para o chão.
Levantei-me para beber água e, ainda tonto e nervoso, decidi sair para espairecer um pouco. Fiz bem. Respirei fundo e senti a vida perpassar nos plátanos da avenida, por entre a multidão que se movimentava, veloz e decidida, rumo a qualquer lugar.
E eu? Eu deixei-me ir. Vi montras de cafés decoradas por meia cortina com varão dourado (que eu espreitava com o pudor de um turista), esplanadas cheias de gente a oferecer sorrisos a quem passava, árvores e povo na rua e carros na estrada, uns a irem e outros a virem, tal como na vida.
Acabei o passeio em casa, recomposto e revigorado, para cumprir a promessa de ontem: fazer o meu almoço europeu, longe dos molhos do terrorismo gastronómico do próximo, médio ou longínquo oriente.
Decidi então fazer uma receita que, num final de tarde chuvoso na República Checa, uma italiana de Parma nos havia ensinado – Pasta aglio, olio e gamberetti.
Ora tomem nota: levei um tacho velho ao lume com dois copos de água. Juntei sal, pimenta e cebolinho, orégãos e salsa fresca, assim como um fiozinho de azeite. Quando a água estava a ferver, coloquei a embalagem de camarão congelado. Deixei três minutos a cozer e coei a água, deixando de parte o marisco.
Adicionei ao caldo mais dois copos de água a ferver, e, aí, cozi a massa fresca que havia comprado no dia anterior aos indianos. Depois de a ter escorrido, preparei uma sertã que encontrei no armário com uma fina de camada de azeite, muito (mas mesmo muito) alho esmigalhado, uma folha de louro e uma malagueta. Quando o alho ficou lourinho, retirei a folha de louro e a malagueta e despejei a massa escorrida sobre o azeite. Envolvi muito bem para que se desse uma óptima absorção e finalmente juntei o camarão. Nova mexida e salsa fresca picadinha por cima. Não terá esta sofisticação, é certo, mas soube-me pela vida, podem crer.
Depois de equilibrado o meu sofrido aparelho digestivo, apanhei o metro para a Rua do Odeon, canal privilegiado de acesso aos jardins do Luxemburgo e primeira rua de Paris a ter passeios no século XVIII (como é que me fui lembrar desta…)
Nos jardins deixei-me levar pela leve brisa que por ali corria, e sentei-me numa das muitas esplanadas a apreciar a bonomia do lugar e uma água com gás. Depois de espreitar o lago central, fui dar uma boa gargalhada (para não chorar!) defronte da Fonte de Médicis, a tal que terá inspirado Siza Vieira e Souto Moura para o tanque dos meus Aliados.

A fonte de Médicis, nos jardins do Luxemburgo em Paris, 9 de Junho de 2006.


Ainda que Montmartre já não seja a de Degas ou Picasso, há por ali um bom gosto e um ambiente de tela indescritível, desde a paisagem sublime sobre Paris (que já aqui havíamos fotografado) à textura e plasticidade no encaixe sucessivo dos pequenos edifícios da arquitectura local. Por ali passeei sem demoras e arrebatado até à hora do jantar. Quando o Porto-Sporting começou, já eu estava sentado num restaurante português no West End parisiense. Sobre o jogo, pouco há a dizer. Paulo Assunção é assim uma espécie de semi-deus negro e Lucho um arquitecto de calibre superior a qualquer desenhador de charcos para avenidas empedradas.
No caminho para casa, ainda parei para ver o e-mail num soturno net-café e descobri mais esta pérola que alimentou o sabor doce da vitória de há pouco.
Já a lua ia alta quando rodei a chave do apartamento para me ir deitar. Depois de debelada uma pequena inundação, fruto de uma torneira aberta na cozinha enquanto tomava banho, adormeci a assobiar: “Só eu sei porque não fico em casa”.

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5 Carruagens:

Anonymous Kate said...

Uau, que imaginacao!!! Conseguiste uma gargalhada.

Obrigada pela dica culinaria Chef! Vou experimentar! No fim tem de se mascar umas pastilhas elasticas potentes, nao? ;-)

Entao os Aliados tem um "tanque"? Ai que nem vou reconhecer a minha rica Avenida... O que e' que o tanque tem dentro? Uma orelha?

Belas fotos!

terça-feira, agosto 28, 2007 1:27:00 da tarde  
Blogger PCS said...

Fabuloso! Todo o texto e as fotos.
E ai vão 4+3= Mais valiam estar caladinhos...

terça-feira, agosto 28, 2007 4:24:00 da tarde  
Blogger solas_na_mesa said...

fantasticos posts!!
tinha uma foto nas catacumbas do meu disco com bolinhos que mencionas no penultimo post. A foto está no solas na mesa.

asta

terça-feira, agosto 28, 2007 10:46:00 da tarde  
Blogger JRP said...

Kate,

Sim. Pastilhas elásticas potentes :-)
Ainda não viste o tanque dos aliados e o seu empedrado? Quando cá vieres, não vás lá. Fica-te pela memória do lugar...
beijinho

quarta-feira, agosto 29, 2007 3:51:00 da tarde  
Blogger AC said...

Este comentário foi removido pelo autor.

quarta-feira, dezembro 05, 2007 3:15:00 da tarde  

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