terça-feira, fevereiro 13, 2007

Grandes Vinhetas # 10
(adenda em Grandes Vinhetas #11)

Retirada de "A Erupção do Karamako" (1952, 1.ª edição 1936-38) Hergé.

Retirado de "Tintin na América" (1945, 1.ª edição 1932) Hergé.

Fotografia de Manhattan, publicada no jornal Crapouillot, Outubro de 1930.
(Fonte: Farr, Michael (2001) "Tintin - O sonho e a realidade").

America is not the world - Morrissey


Certo dia, no ano de 1935, o director do jornal Coeurs Vaillants - Father Courtois - propôs a Hergé a criação de uma personagem com o ritmo e a qualidade que ele havia concebido em Tintin, herói da obra que Courtois seguia atentamente desde há 6 anos, após a sua criação no Le Petit Vingtième.
Courtois, contudo, não apreciava a independência e a falta de valores clássicos em Tintin, uma vez que este não ia à escola, não tinha mãe, irmãos, nem pai que trabalhasse para o sustento da casa.
Foi assim que surgiram as "Aventuras de Joana, João e do Macaco Simão", obra que, contrariamente a todas as outras séries de Hergé, não nasceu de uma iniciativa pessoal do autor belga.
Talvez por isso não seja de estranhar o relativo insucesso da série em todo o mundo (Hergé abandonou-a no final da década de 50) e o profundo desconhecimento da série em Portugal, apesar de ter sido recentemente reeditada pela Verbo. Hergé, mais preocupado em expurgar os seus medos, sonhos e frustrações, as suas memórias e vivências pessoais em Tintin, acabou por desenvolver apenas 3 histórias (que se transformaram em 5 álbuns) para os irmãos Legrand - João e Joana - filhos de um laborioso engenheiro de aeronáutica e de uma devota dona de casa, e sempre acompanhados pelo fiel Simão, macaco de estimação. Será, aliás, esta limitação criada pela família padronizada pelos valores ocidentais que tornará injustificável a participação dos irmãos Legrand em aventuras longínquas, arriscadas e perigosas, ao contrário do solitário Tintin, sempre pronto a partir para qualquer destino.
Ainda que longe do brilhantismo de "As Aventuras de Tintin", com tramas melhor urdidas, histórias mais complexas e um traço mais cuidado, as "Aventuras de Joana, João e do Macaco Simão" são ainda assim peças de enorme qualidade, não só porque se sente a assinatura do mestre belga em cada vinheta e em cada balão, como se desvendam as relações com os livros do repórter Tintin, nos estudos que Hergé fazia para cada tira, aplicando a sua obsessão pela extrema precisão dos pormenores. De certa forma, essa cuidada apresentação da realidade, somada a um certo tom melodramático e crítico sobre a opressão sobre os mais fracos, acaba, na minha opinião, por enquadrar Hergé e a sua obra no movimento neo-realista de meados do século XX.
Para que se constate esse perfeccionismo na transição da documentação que Hergé catalogava com ardor, basta contrastar as duas vinhetas acima reproduzidas, das edições a cores dos álbuns "A Erupção do Karamako" (2.ª parte da primeira história das "Aventuras de Joana, João e do Macaco Simão" - "O Raio Misterioso") e “Tintin na América” (de "As Aventuras de Tintin"), com a fotografia de Manhattan (encontrada na documentação de Hergé), publicada no jornal satírico Crapouillot, em Outubro de 1930, num número especial de crítica acérrima ao capitalismo sedento dos Estados Unidos da América, que criava instantaneamente skylines como o de Nova Iorque e tornava decadentes os índios autóctones, que Hergé tanto admirava.
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Continuam a chegar respostas ao repto que aqui lancei para descreverem o vosso golo de sonho vestidos de azul e branco, a juntar ao João Saraiva, ao Aníbal Letra e ao André Moura e Cunha:
- do Ricardo Castro Ferreira, no Solas na Mesa, encarnando o mítico Eurico e apelando a uma nostalgia pelo futebol dos anos 80. Como te compreendo. Ainda me recordo das chuvadas imensas que apanhava, de mão dada com a minha madrinha, no gélido, duro e desconfortável betão das Antas. Que saudades!
- do Michael Knight, no Renteria Mejor Amigo. Um post divertidíssimo, num blogue curioso, na saga do Adriaanse Best Friend. Excelente participação ainda que, por lapso, não o tivesse incluído na listagem inicial. Agora, aguardo o do MacGyver e o de todos os que quiserem participar!
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E ainda:
1 - Este texto é dedicado ao meu caríssimo amigo Paulo de Sousa, do Linear P, por
esta lembrança, esquecida no fundo de uma das suas riquíssimas gavetas, de tempos que já lá vão.
2 - Não deixem de espreitar
esta denúncia do Carlos Romão no incontornável "A outra face da Cidade Surpreendente". Coincidentemente, cruzei-me com o Carlos no preciso momento em que produzia esse post. Eu estava acompanhado por turistas franceses que também "deram com o nariz da porta". Enfim...

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9 Carruagens:

Anonymous Kate said...

Vou mts vezes para o lab ao som da colectanea que nos deram em Maio. Adoro! Sinto-vos mais perto, principalmente na musica #14 :)

Manhattan e' fantastica! Nao ha' que recear a sua "allure"!!!!

Sera que este post significa uma visita para breve :)))) ?

terça-feira, fevereiro 13, 2007 3:10:00 da manhã  
Blogger JRP said...

:-)
Adoro ler os teus comentários. Fazem-me sentir que vale a pena escrever aqui.
Infelizmente não está ainda para breve a visita a NY!
Qual é a #14? Já nem me lembro :-)
Ah! Viste o post antes de estar pronto! Estava ainda em experiências...

terça-feira, fevereiro 13, 2007 4:16:00 da manhã  
Anonymous Kate said...

#14 = "This is the life" by Lads
Cantor 5 estrelas :-)

terça-feira, fevereiro 13, 2007 1:14:00 da tarde  
Blogger solas_na_mesa said...

em minha casa havia este livro do Joana, João e o macaco Simão! era bom mas não o gastei de tanto ler como aconteceu com os Tintins :)

Na vinheta do Tintin, não aparece a ponte de brooklyn que foi construída em 1873 (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ponte_de_brooklyn).

Será que encontramos uma falha do mestre ou apenas um capricho de artista?

terça-feira, fevereiro 13, 2007 3:15:00 da tarde  
Blogger JRP said...

Ora aí está uma belíssima pergunta: porque não aparece a ponte brooklyn no Tintin na América, se ela já lá estava na década de 30 (aliás como a fotografia comprova) e se depois aparece no album das aventuras de Joana, João e do Macaco Simão?
A resposta não a sei, mas posso talvez acrescentar um dado. Apesar de na versão colorida da Erupção do Karamako a ponte lá aparecer, a verdade é que na primeira versão, a da segunda metade da década de 30, a ponte também lá não está.
Julgo não ser falha, antes, como em muitas outras situações, opções de desenho que terão relação com o impacto do Skyline aos olhos do leitor (a ponte tem sobretudo uma leitura horizontal) e o reforço da insularidade de Manhattan. Talvez, mas sem certeza!

terça-feira, fevereiro 13, 2007 5:52:00 da tarde  
Blogger JRP said...

Fica já a promessa. Publicarei a vinheta original a preto e branco da Erupção do Karamako brevemente.

terça-feira, fevereiro 13, 2007 5:53:00 da tarde  
Blogger Teo Dias said...

uma pequena informação da "minha aldeia":
a fabulosa livraria "tim-tim por tim-tim" agora mudou-se para a rua da Conceição.

para quem gosta de BD é uma verdadeira mina de recordações.

talvez em breve lhe dedique uma foto ou algo mais.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007 1:53:00 da manhã  
Blogger PCS said...

O meu muito obrigado pela dedicatoria. A comparação das fotos está genial.
Em relação à ponte, julgo não ser um erro. Hergé destacou a posição vertical de tintin e delineou a perspectiva horizontal. Se a ponte estivesse lá retirava todo o efeito de isolamento da verticalidade da figura de tintin. Repara que as linhas em "cloisonismo" nunca tocam a figura, especialmente no ombro esquerdo de tintin. Abraço.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007 10:38:00 da manhã  
Blogger JRP said...

Também não me parece que seja erro. No fundo, aquilo que dizes, PCS, está a corroborar com aquilo que escrevi no ponto 1 do post seguinte.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007 3:17:00 da tarde  

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