domingo, Fevereiro 24, 2008

O Porto Oriental no Final do século XIX



Caros passageiros,


Gostaria de os convidar para a sessão de apresentação do livro O Porto Oriental no Final do Século XIX - Um retrato urbano, de que sou autor. O livro será apresentado pelo Professor Doutor José Alberto Rio Fernandes. A sessão terá lugar na próxima quarta-feira, dia 27 de Fevereiro, pelas 21.30h, no Salão Nobre da Junta de Freguesia do Bonfim, no Porto (Campo 24 de Agosto).
Será um prazer encontrá-los lá.

sábado, Fevereiro 09, 2008

Lá em cima, há planícies sem fim.

O espaço visto por entre as árvores do Parque da Cidade, no Porto, 3 de Novembro de 2007.

Paulo de Carvalho - Era uma vez o Espaço

Sempre atrasado, segue aqui a ligação para o texto sobre o Carnaval que escrevi no JN do passado dia 30 de Janeiro.
O texto pretende lembrar o passado de glória do Carnaval na Invicta e, sobretudo, manifestar a preocupação com a forma como a actual edilidade despreza a interacção com a população da cidade, actores e espectadores simultaneamente, reagindo tarde e temerariamente às novas tendências urbanas, e preferindo recordes “estratosféricos” de ferro e PVC à evocação da alma portuense ou à busca da identidade da cidade, fundadas num passado que a História e a Geografia ensinam e que a literatura de Alberto Pimentel, Camilo Castelo Branco ou Ramalho Ortigão tão bem ilustram.
Numa sociedade do consumo, palco desta nova realidade urbana de efemeridade e ilusão, que (sobre)vive à custa dos eventos e da imagem para o mundo, espera-se que este regresso insípido do Carnaval à Baixa seja, acima de tudo, a semente de um projecto de maiores dimensões que respeite a herança histórica da cidade e mobilize a participação dos portuenses.
E, já agora, que a crítica à CMP possa coexistir com estas manifestações culturais. Não levem a mal, mas a velha liberdade de expressão, mesmo neste fictício mundo pós-moderno, de vez em quando, ainda sabe bem.

quinta-feira, Fevereiro 07, 2008

Nevertheless

O edifício transparente e o Atlântico, como eu os vi lá do alto, no final de Outubro do ano passado.

The Radio Dept. - Against the tide

terça-feira, Dezembro 11, 2007

Grandes Vinhetas # 24
(Dedicada ao David Luiz do Benfica)

Retirado de "As Jóias de Castafiori" (1963) Hergé.

The Waterboys - The Raggle Taggle Gypsy

Pequena aparição no Comboio Azul apenas para desejar que hoje, contra o Besiktas, o Quaresma volte a emocionar-nos com a melodia das suas trivelas.

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quarta-feira, Novembro 21, 2007

And Now for Something Completely Different


Herman Enciclopédia

domingo, Novembro 04, 2007

1 ano ou Grandes Vinhetas # 23
(Post cheio de ressentimento)

Retirado de "Bravo para os Brothers - As aventuras de Spirou e Fantasio" (1965) Franquin.

The Smiths - Unhappy Birthday

Assumo sem reticências. Este blog é um fracasso. É um chorrilho de promessas adiadas, um conjunto de propostas inacabadas.
Quando há pouco mais de um ano este comboio partiu, tomei a decisão de não escrever sobre a cidade do Porto. Tinha escrito num outro blog só sobre a minha cidade e não queria nem que este fosse uma repetição do anterior, nem que eu me sentisse limitado a escrever sobre um tema. Durou pouco mais de um mês. A 6 de Outubro de 2006 escrevi este post. O primeiro de muitos. Quase todos, se não todos, piores que tudo o que havia escrito no blog anterior e, a maior parte das vezes, a soma de uma fotografia feita por mim e uma canção e um poema escritos por outrém.
O mesmo aconteceu em muitos outros momentos.
Nunca este blog foi solicitado para entrar numa corrente. Mais, o Comboio Azul até criou uma corrente (quer dizer, nem era bem uma corrente...), que diga-se acabou por ter uma adesão muito interessante, mas mesmo assim, nunca nenhum outro blog nos solicitou para dizermos quais os nossos dez filmes preferidos, quais os dez livros que não mudaram a nossa vida ou quais os nossos dez papeis higiénicos de eleição. Bem sei que é desígnio pateta, mas bolas (!) é um indicador de popularidade...
No que diz respeito a visitas, o blog teve sempre um desempenho mediocre. Navega nas 60 visitas diárias em média (com acentuada queda durante esta recente ausência), o que é manifestamente menor que as minhas experiências anteriores na blogosfera. E nem sequer me posso queixar de o blog não ter sido publicitado, que o foi, quer pelos posts simpáticos do Pedro Correia no Corta-Fitas, que fizeram disparar o sitemeter, quer pelas minha presenças erráticas na Baixa do Porto, ou nas simpáticas referências feitas por essa blogosfera fora, do Dias com Árvores ao amigo e próximo Cidade Surpreendente, entre tantos outros. Ainda assim, apesar desses fogachos, o blog manteve sempre números claramente baixos, alimentados sobretudo pelos desgraçados que cá chegavam dominantemente em pesquisas no google por comboio e vinhetas.
O melhor até agora foram as amizades que criei. Entre elas, porque sei serem de pessoas com as quais o blog foi dialogando e com quem tantas vezes nos fomos identificando, encontram-se o Francisco Curate do Daedalus, o Ricardo Castro Ferreira do Solas na Mesa, o Aníbal Letra do Fêcêpê: Orgulho e Glória (entretanto, um blog lamentavelmente desaparecido...), o Guardabel do Pobo do Norte ou o João Saraiva do Óculos Azuis e Brancos. Das discussões, que não foram assim tantas, a melhor foi de longe a que mantive com o Rogério Casanova do Pastoral Portuguesa, sobre Tintin no Congo. Pelo caminho foi também agradável receber a resposta de Eduardo Pitta do Da Literatura, a propósito destas minhas sugestões gastronómicas na cidade do Porto ou a recomendação de Tiago Barbosa Ribeiro do Kontratempos, para as fotografias sanjoaninas aqui reproduzidas. Daqueles que nunca me ligaram pevide, e não foram assim tão poucos como isso, não tenho tempo, nem memória para aqui os linkar (quer dizer, até tenho memória e, agora, até tinha tempo, mas orgulho-me do meu despeito).
Depois de dois meses parado, venho aqui dizer que o Comboio azul voltará a viajar, apesar do escasso tempo que possuo. Provavelmente, em formato bem diferente do que até aqui tem sido, ou então, como tem acontecido sempre que anuncio mudanças, ficará tudo como está. Veremos.

P.S. - Ah! Prometo acabar a viagem que deixei a meio.

sexta-feira, Agosto 31, 2007

Ainda Paris
(Dia Cinco)

A Place des Vosges, Paris, 8 de Junho de 2006.

Desireless - Voyage Voyage

Uma das evidências que levo desta vida é a frequência com que o divino entra em contacto com o terreno.
Conheço muitos episódios, que me foram contados na primeira pessoa, sobre contactos com parentes já desaparecidos, segredos revelados por vidência, actos milagrosos atribuídos a um qualquer Deus.
Lamentavelmente, a mim, o metafísico jamais se revelou. O mais perto que esteve de o fazer foi há uns anos atrás quando, por razões que a lógica Descartiana desconhece, o meu carro em funcionamento fechou automaticamente as cinco portas, deixando-me no exterior com as calças na mão. E aqui não uso a expressão "calças na mão" metaforicamente, mas no sentido mais lato da mesma. De calças na mão porque me tinha esquecido do cinto em casa e usava um número muito superior ao que me servia na altura, consequência de um súbito emagrecimento e de uma preguiça total em comprar roupa nova. Um aborrecimento tamanho que me fez amaldiçoar esse dia até à eternidade.
De resto, e apesar de diversas tentativas de contacto extra-sensorial, são anos de vida terrena sem experiências paranormais. Por uma vez que fosse, gostaria que o além me desse um sinal da sua existência, como uma visão do futuro, um milagre maravilhoso ou, pela primeira vez, uma boa crónica da Leonor Pinhão.
Recordo-me, por exemplo, de como chegava mais cedo ao colégio religioso da minha infância para ir rezar para a capela (para gáudio das irmãs de hábito cinzento! Mal elas imaginavam...), pedindo em surdina ao Todo-Poderoso para a minha freira-professora estar doente e, por isso, não dar aulas. Nunca aconteceu.
Ou das várias vezes que fui convidado por amigos (ou em que me fiz forçadamente de conviva) para participar numas das muitas sessões espíritas que faziam. Tentei afincadamente, mas em vão. O copo nunca deslizou no famoso jogo em que um espírito responde acertadamente às perguntas mais indiscretas que se lhe possam fazer. Sempre que participei, não só o copo não se mexeu, como fui sempre acusado de ser o culpado pelo insucesso do conjunto. "Mau karma" - apontou, um dia, uma parceira de mesa que alegava que a mãe, numa ocasião há alguns anos atrás, se havia transformado em cobra e regressado ao estado normal em menos de uma hora.
Pois bem. Na noite passada, depois de ter resolvido a incómoda inundação da cozinha do apartamento, o divino parece ter cozinhado algo nos meus sonhos.
Não me recordo de tudo porque passei enquanto dormia, mas, numa conjuntura que não posso precisar, o Criador regressava à Terra, anunciando o último dos dias. A dada altura, vi ao longe uma colina de onde Cristo, numa túnica de serapilheira, comandava com o seu ar tranquilo e pacífico uma multidão, também ela serena, que o seguia. Entre episódios vários, mais ou menos desconexos e sem sentido, encontrei o inesperado Miguel, velho amigo de escola com quem há muito não falava, que naquele sonho era dono de um bizarro estabelecimento comercial numa sub-cave, onde os clientes assavam, em mini-espetos sobre as mesas de madeira escura, lagartixas esverdeadas.
Acordei um pouco zonzo, mas ainda assim infinitamente melhor que ontem, sem saber que significado atribuir aquele sonho. Era cedo e decidi aproveitar o dia. O último em Paris.
Durante a manhã, atravessei o bairro judeu e deixei-me envolver pelo quadrado da Place des Vosges, a primeira Place Royal. No meio, envolto na moldura dos edifícios que a balizam, está Luís XIII a pedido de Richelieu, uma das poucas estátuas que sobreviveram à Revolução. Terá sido esta praça, que encerra em si uma harmonia desconcertante entre a ritmo simétrico das fachadas e a cadência da arcada que a sustenta, que influenciou a construção de todas as outras que lhe sucederam nos séculos do Absolutismo, desde a Place de la Bourse em Bordéus, à Praça do Comércio em Lisboa, ou ao projecto nunca acabado da Praça da Ribeira do Porto, ainda que sem rei.

Sob o Arco do Triunfo, Paris, 8 de Junho de 2006.

Regressei ao metro e saí junto à Notre-Dame. Caminhei para Norte, passando pelo Hotel de Ville e por uma famosa casa de fotografias antigas, rumo ao Centro Georges Pompidou. Ali chegado, lembrei-me do bistrot Dame Tartine, um óptimo restaurante onde em tempos almocei com a Mika. Resolvi repetir a óptima experiência, até porque a hora tardia aconselhava um bom almoço.
Fiquei na esplanada junto à surrealista Fontaine Stravinski e comi uma belíssima omelete de fiambre e cogumelos, acompanhada por uma rica salada verde. Enquanto almoçava, perdia o meu olhar entre as piruetas dos diversos objectos artísticos da fonte e a arquitectura desconcertante do Centro. Por momentos, veio-me à memória a destruição de Paris por uma enorme vaga de água, a que eu havia assistido num intenso pesadelo na manhã de ontem, do topo da estranha estrutura que ali estava à minha frente. Entretanto, o reflexo forte do Sol num vidro do edifício fez-me fechar os olhos e levar as mãos à face. Assim fiquei uns instantes breves, até que abruptamente sinto um enorme impacto líquido nas minhas costas, consequência de uma queda da simpática empregada de mesa do restaurante que me encharcou quase por completo com água.
Não fiquei com as calças na mão (agora sim, é uma metáfora). Deixei que uma toalha aconchegante do restaurante e o calor abafado que abraçava Paris fizessem o seu trabalho de secagem, enquanto sorria e me deliciava com um fondant de chocolate, acompanhado de gelado de baunilha. Et voilá.
Restabelecido, comecei a minha tarde com um enorme passeio. Abandonei a esplanada em direcção à Ponte Neuf e espreitei a triangular Place Dauphine junto ao Sena. Fiz a promenade ombro a ombro com o Louvre e segui para Oriente através das Tulherias. Da Concórdia tomei o caminho para o Cours de La Reine e contemplei a beleza dourada da ponte Alexandre III em equilíbrio perfeito com o Grand e o Petit Palais, seus vizinhos. Atravessei a ponte e apreciei a imponência dos Invalides, antes de apanhar o metro para a Place de l'Etoile. Aí, exausto, sentei-me junto a um dos pilares do arco e matei saudades de casa através de uma inscrição na parede interior do arco, lembrando as invasões francesas ao Porto.
Rodopiei depois em torno do arco, contando as avenidas que dele partiam e gozando o facto de estar no centro de um eixo de há muito traçado, que partia do coração do Louvre, cruzava as Tulherias, a Concórdia, os Campos Elísios, a Place de l'Etoile e tendia para o infinito via La Defense, no arco gigantesco lá ao fundo, etapa recente da história urbana do homem.
O cansaço havia-se apoderado de mim. Vagueei perdido pelas proximidades em busca de um local agradável para beber umas águas e descansar um pouco. Numa perpendicular à Boulevard Kléber, reparei num pequeno letreiro com letras garrafais "Happy Hour - Bistrot Fin du Monde". Entre as cinco e meia e as sete e meia, o café era gratuito, desde que se fizesse algum consumo. Lá entrei no "Fim do mundo", atraído mais pela economia do lugar do que pelo encanto da decoração. Ainda assim, tinha aquele charme parisiense, dos sofás revestidos com tecidos sóbrios mas vivos, em que tudo parece sempre no seu lugar, sem um papel no chão ou uma beata fora do cinzeiro. Talvez por tudo isso ou porque o café ficava um pouco abaixo do nível do solo, tropecei no degrau de entrada e acabei um pouco atrapalhado junto de uma estátua em pau-preto de Cristo que jazia encostado a um espelho. Sentei-me e espreitei o menu onde os preços não escandalizavam mais que um dos pratos, tido como especialidade da casa: camarão em casca de crocodilo. Chamei o empregado e quando ia pedir uma Evian e o respectivo café, reparo que uma cara familiar me cumprimentava. Miguel! Esse mesmo com quem eu havia sonhado estava ali à minha frente, a cerca de 2000 quilómetros do lugar onde nos tínhamos conhecido, há mais de vinte anos atrás.
Jantamos em Montparnasse e fomos ver a Torre Eiffel à noite a partir do Palais du Chaillot, onde imitei a conhecida pose de Hitler de mãos firmes pousadas sobre o miradouro do palácio para a torre. O Miguel havia imigrado para Paris há dois anos, retomando o negócio de um tio entretanto falecido - o "Fin du Monde".
Acabamos a noite no Gibus, um bar-disco de música Indie junto à Place de la Republique, em que recordamos o Voyage Voyage, dos Desireless, que ambos ouvíamos quando ainda éramos colegas na escola secundária.
O dia não terminou tarde, até porque tinha que preparar a mala. Despedi-me do Miguel, que me havia dado boleia ao apartamento, e confessei-lhe o sonho que havia tido. Ele ficou muito surpreendido e disse-me que, por sua vez, tinha sonhado com bolas de Berlim e suspensórios. O Além tem estranhas formas de se fazer comunicar... Mensagem recebida: O meu destino para os próximos dias será a Alemanha. Ou isso, ou o Miguel precisa de ajuda psiquiátrica.
Antes de adormecer, escrevo finalmente estas últimas palavras:
Amanhã, Paris será passado.

A torre Eiffel, Paris, 8 de Junho de 2006.


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Nota:
O Ricardo, do Solas na Mesa, faz uma bela adenda a esta viagem. Vale a pena passar por lá!

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terça-feira, Agosto 28, 2007

Paris - Paris ou Grandes Vinhetas # 22
(Dia Quatro)

A basílica do Sacré-Coeur, como nós a vimos a 6 de Junho de 2006.

Air - Ce matin la

Juro. Não terei pregado olho mais de meia hora durante a noite passada.
Apesar de ter chegado exausto, a cama alheia, o miar intenso e lascivo dos felinos nas traseiras e o mal-estar generalizado que irradiava do meu estômago e dos meus intestinos mantiveram-me afastado da noite tranquila e bem passada que tanto precisava. Por isso, esta manhã levantei-me exausto para um dia que pretendia longo e cheio, e sem café decente para tomar.
Cambaleei no curto espaço entre o quarto e a sala e sentei-me no sofá vermelho do apartamento. Liguei a televisão e deixei-me ali ficar, pálido, apático e enjoado, a deslizar sem sentido os meus dedos pelo comando, com os olhos semicerrados quase em agonia.
Intempestivamente, um rapaz de fato bem aprumado surgia nos ecrãs da TF1 revelando, em tom dramático, que algo de muito estranho se passava na cidade. A notícia prendeu-me a atenção porque alguns dos locais que desejava visitar surgiam no pequeno ecrã tomados por pequenas inundações que enchiam os seus pavimentos de água. O tom do apresentador era claramente assustado e percebi, no meio de alguma confusão, que o mesmo fenómeno estaria a acontecer em Nova Iorque, Londres e mais uma dezena de cidades pelo mundo fora sem que se compreendesse a origem de tanta água.
Assustado, saio tenso para a rua e esta encontrava-se com uma fina e bizarra camada de água. A gente que por mim passava parecia um pouco surpreendida, mas não excitada ou exaltada, como eu próprio me sentia, aparentando, no meio do incómodo, uma tranquilidade que no meu país seria impossível. De súbito, no meio desta perturbadora calma, eis que alguém mais assustado ventila a notícia que em Jakarta, na Indonésia, ondas gigantes haviam invadido a cidade, causando milhares de mortos.
Tomado por uma ansiedade imensa, desato a correr pela rua fora, sem ideia nem destino, procurando algo que desse sentido a tudo o que estava a acontecer. Ao fundo, surgia o Centro Georges Pompidou onde entrei sem que ninguém me tivesse pedido bilhete. Assim que subia desenfreadamente a manga exterior do edifício para atingir rapidamente o seu topo, ouvi o primeiro estrondo. Aos céus de Paris subia um repuxo enorme que partia dali perto. Fechei os olhos por momentos e continuei a subir. Ao chegar ao topo, vi uma enorme bola de água arrasar a cidade a partir de oeste, perdendo fulgor à medida que de mim se aproximava. Sem tempo para pensar, corri no sentido contrário tentando em vão descortinar a saída. Depois de dois ou três estrondos violentos, a massa de água atingiu o edifício, onde penetrou sem piedade nem misericórdia pelos tubos, salas e corredores. Prostrado, inerte e encharcado, jazia tombado junto às escadas rolantes que continuavam a funcionar.

Retiradas de "Paris Submerso"(2004) Morvan/Munuera.


A baba corria como musgo pelo meu queixo. A noite terrivelmente mal dormida havia-me proporcionado um angustiante pesadelo. À minha frente, o inspector Gadget disparatava na televisão e o comando cinzento da televisão havia escorregado das minhas mãos para o chão.
Levantei-me para beber água e, ainda tonto e nervoso, decidi sair para espairecer um pouco. Fiz bem. Respirei fundo e senti a vida perpassar nos plátanos da avenida, por entre a multidão que se movimentava, veloz e decidida, rumo a qualquer lugar.
E eu? Eu deixei-me ir. Vi montras de cafés decoradas por meia cortina com varão dourado (que eu espreitava com o pudor de um turista), esplanadas cheias de gente a oferecer sorrisos a quem passava, árvores e povo na rua e carros na estrada, uns a irem e outros a virem, tal como na vida.
Acabei o passeio em casa, recomposto e revigorado, para cumprir a promessa de ontem: fazer o meu almoço europeu, longe dos molhos do terrorismo gastronómico do próximo, médio ou longínquo oriente.
Decidi então fazer uma receita que, num final de tarde chuvoso na República Checa, uma italiana de Parma nos havia ensinado – Pasta aglio, olio e gamberetti.
Ora tomem nota: levei um tacho velho ao lume com dois copos de água. Juntei sal, pimenta e cebolinho, orégãos e salsa fresca, assim como um fiozinho de azeite. Quando a água estava a ferver, coloquei a embalagem de camarão congelado. Deixei três minutos a cozer e coei a água, deixando de parte o marisco.
Adicionei ao caldo mais dois copos de água a ferver, e, aí, cozi a massa fresca que havia comprado no dia anterior aos indianos. Depois de a ter escorrido, preparei uma sertã que encontrei no armário com uma fina de camada de azeite, muito (mas mesmo muito) alho esmigalhado, uma folha de louro e uma malagueta. Quando o alho ficou lourinho, retirei a folha de louro e a malagueta e despejei a massa escorrida sobre o azeite. Envolvi muito bem para que se desse uma óptima absorção e finalmente juntei o camarão. Nova mexida e salsa fresca picadinha por cima. Não terá esta sofisticação, é certo, mas soube-me pela vida, podem crer.
Depois de equilibrado o meu sofrido aparelho digestivo, apanhei o metro para a Rua do Odeon, canal privilegiado de acesso aos jardins do Luxemburgo e primeira rua de Paris a ter passeios no século XVIII (como é que me fui lembrar desta…)
Nos jardins deixei-me levar pela leve brisa que por ali corria, e sentei-me numa das muitas esplanadas a apreciar a bonomia do lugar e uma água com gás. Depois de espreitar o lago central, fui dar uma boa gargalhada (para não chorar!) defronte da Fonte de Médicis, a tal que terá inspirado Siza Vieira e Souto Moura para o tanque dos meus Aliados.

A fonte de Médicis, nos jardins do Luxemburgo em Paris, 9 de Junho de 2006.


Ainda que Montmartre já não seja a de Degas ou Picasso, há por ali um bom gosto e um ambiente de tela indescritível, desde a paisagem sublime sobre Paris (que já aqui havíamos fotografado) à textura e plasticidade no encaixe sucessivo dos pequenos edifícios da arquitectura local. Por ali passeei sem demoras e arrebatado até à hora do jantar. Quando o Porto-Sporting começou, já eu estava sentado num restaurante português no West End parisiense. Sobre o jogo, pouco há a dizer. Paulo Assunção é assim uma espécie de semi-deus negro e Lucho um arquitecto de calibre superior a qualquer desenhador de charcos para avenidas empedradas.
No caminho para casa, ainda parei para ver o e-mail num soturno net-café e descobri mais esta pérola que alimentou o sabor doce da vitória de há pouco.
Já a lua ia alta quando rodei a chave do apartamento para me ir deitar. Depois de debelada uma pequena inundação, fruto de uma torneira aberta na cozinha enquanto tomava banho, adormeci a assobiar: “Só eu sei porque não fico em casa”.

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