Terça-feira, Janeiro 23, 2007

Lei da permanência

A praça da Batalha, no Porto, ao vigésimo terceiro dia de Dezembro de 2006.

Mute Witness - Morrissey

"(...) a Piazza Navona é uma configuração da lei da «permanência» dos traçados urbanos. (...) Esta praça, nascida de um traçado ordenado e utilizado para outros fins que não os primitivos, levanta outro tipo de problema ao urbanista: porque razão este sítio manteve uma animação popular constante durante 2000 anos? (...) Ainda hoje, à medida que os habitantes das cidades cada vez menos utilizam o espaço público, a Piazza Navona continua a ser frequentada, seja qual for a hora, o dia ou a estação. Magia do local, talvez?"
Charles Delfante (1997) A grande história da cidade.

A encantadora Lua coloca-se novamente alinhada pela porta principal da setecentista igreja de Santo Ildefonso, na Praça da Batalha no Porto, como o faz desde que esta era apenas uma pequena ermida no cimo de um outeiro, junto a um cemitério. A igreja, anfitriã como poucas graças à longevidade de tal nobre demanda, abre-lhe gentilmente os portões em ferro do seu adro, como uma mãe abre os braços a um filho que não vê há muito tempo.
Tempo. Tudo se resume à velocidade do tempo. Lá do alto, a Lua, espectadora deliciada e silenciosa, assistiu às voltas que a praça foi dando ao longo do tempo, desde provável cemitério suburbano da cidade romana de Cale, a velha e movimentada entrada oriental na medieval cidade do Porto (pela desaparecida Porta de Cima de Vila que ficava, no mesmo enfiamento, à entrada da Rua de Cimo de Vila e junto ao actual Hotel Mercure), à boémia e divertida praça oitocentista, dos cafés Águia D'ouro e do Teatro São João, nas patuscadas camilianas ou no diletantismo de Júlio Dinis.
No fundo, a Batalha é um pouco como a romana Piazza Navona, que, no século I, foi palco de simulações de batalhas navais, no estádio Domiciano (de onde herdou a forma que lhe dá o nome - navio), foi, na idade média, lugar de feiras, festas e torneios, e, mais tarde, praça barroca de Borromini e Bernini, que a transformaram no cenário idílico de animação e convívio que perdura até aos dias de hoje.
A perenidade morfológica dos dois espaços, conferida mais por geometria e economia de fundação do que por energia mística do lugar, mistura-se com a continuidade funcional. No caso da portuense praça da Batalha é a hotelaria, desde a grande e boa estalagem de Cimo de Vila do século XIV (que ficava mesmo juntinho à forca), passando pelos diversificados e procuradíssimos hotéis de XIX (como o Universal ou o Estanislau, entre tantos outros), até aos actuais Mercure e Quality Inn, filhos da globalização sem fim. A fatalidade hoteleira deve-se provavelmente ao facto de a praça ter funcionado eternamente como hall de entrada na cidade, quer como rossio no exterior de uma das portas mais importantes da cidade medieval (onde se sucediam as feiras e as filas para entrar na cidade), quer como lugar de partida e chegada de diligências e carros americanos (vindos dos aglomerados próximos ou da estação de Campanhã a partir de 1875), quer ainda como destino final das estradas vindas de Penafiel (Rua de Santo Ildefonso) ou de Guimarães (Rua de Santa Catarina).
Na Batalha, ao contrário da Navona, a forma em boomerangue ou em L da praça tripeira (consequência do adro de Santo Ildefonso e das suas feiras, numa extremidade, e da velha estrada para Valongo por Entreparedes, na outra) não gerou o seu topónimo, que parece ser herdado de uma batalha do século X, entre Cristãos e Sarracenos.
Sorrindo a quem sai da igreja de Santo Ildefonso, a imortal e luzidia testemunha silenciosa (por falar em Mute Witness, a música é sensacional, não é?) rebaixa quem pode apenas imaginar aquilo que foi a praça no seu passado, e não acompanhou, noite atrás de noite em séculos que já lá vão, os diferentes passos na modelação morfológica e funcional da mais incessante praça do Porto, como ela o fez.
Toldado pelo abandono actual da praça, na minha cabeça, como Salieri contra Mozart, conjecturo a morte fria e sangrenta da garbosa Lua, única forma de vingança contra a sua sorte imensa.

P.S. – A dada altura na canção, Morrissey pede: "Now dry your tears, my dear". Sim, o destinatário era eu. Depois deste fim-de-semana, nunca mais serei o mesmo. Afinal, a felicidade é logo ali.
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A ler:
1 -
Onde a tradição ainda é o que era, na Cidade Surpreendente.
2 - A ironia da pergunta de Gabriel do Blasfémias:
uma questão à qual convinha desde já ter uma resposta.
3 - O post
"Do mito da grandeza (ou um post que nunca mais acaba)", na Fonte das Virtudes.
4 - Esta análise ao Scoop, em O Amigo do Povo (via Corta-fitas).

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