segunda-feira, dezembro 11, 2006

A justiça divina

"Aos Carlos chamamos Carlitos, e eu quero falar de um Carlitos que regressa ao Chile depois de vinte anos de ausência. Abandonou o país quando tinha sete anos e realmente não se queria ir embora, não queria entrar para o avião, também não queria ser amável com o senhor do ACNUR, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, que o acompanhava a ele e à mãe, protegendo-os dos olhares de ódio que lhes lançavam os soldados, sobretudo à mãe, sobrevivente de um centro clandestino de torturas chamado Villa Grimaldi.
[..] Antes de entrar no avião, um oficial dos serviços de espionagem militar entregou-lhe o seu primeiro passaporte. Na primeira folha havia uma misteriosa letra "L" e uma inscrição: "Documento válido para todos os países menos para regressar ao Chile." De modo que o Carlitos, aos oito anos, se juntou à fraternidade universal dos exilados.
Era Carlitos um tipo perigoso para a ditadura de Pinochet? Talvez. O padre e director do Colégio Salesiano onde estudava garantiu que nunca ouvira dele discursos subversivos, mas que as suas repetidas ausências às aulas de religião o convertiam num suspeito. Além disso, Carlitos tinha dado provas de firmeza diante dos militares. Quando, em 1973, prenderam o pai, tranquilizou a mãe jurando-lhe que este sairia vivo porque estava sob a protecção de Sandokan. Três anos mais tarde, quando prenderam e fizeram desaparecer a sua mãe, não chorou diante dos soldados. Enfrentou-os avisando-os de que sobre eles cairia todo o poder da Confederação Galáctica
."
Assim escreveu Luis Sepúlveda sobre o filho Carlos, no comovente "O General e o Juiz". Os milhares de chilenos que, como ele, sofreram nas garras de Pinochet, não terão direito a ver este monstro julgado. Agora que a justiça dos homens falhou de forma tão cobarde, resta-nos acreditar na divina. Soube-se pela televisão que um padre já lhe teria dado a extrema-unção, o que só vem mostrar mais uma vez que não há instituições incorruptíveis. Acreditaria o general que comprando o perdão de um qualquer padreco, compraria a entrada no paraíso?
Esperemos agora que com Pinochet não tenha morrido também a vontade de devolver aos chilenos a sua verdadeira liberdade: o direito à verdade e à justiça. Hoje é um bom dia para relembrar (e acreditar em) Salvador Allende:
"Colocado num transe histórico, pagarei com a minha vida a lealdade do povo. E digo-lhes que tenham a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares de chilenos, não poderá ser ceifada em definitivo. [...] Trabalhadores da minha Pátria, tenho fé no Chile e no seu destino. Outros homens hão-de superar este momento cinza e amargo em que a traição pretende impôr-se. Prossigam vocês, sabendo que, bem antes que o previsto, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor."

Connosco neste lamento estão, entre outros: o Kontratempos de Tiago Ribeiro, a Fonte das Virtudes de Pedro Simões, A Terceira Noite de Rui Bebiano, o Arrastão de Daniel Oliveira, o Causa Nossa de Vital Moreira, o Glória Fácil de João Pedro Henriques, o Dolo Eventual de David Afonso, e o French Kissin' de João Morgado Fernandes.
Já agora, espreitem o excelente
cartoon do sempre genial José Bandeira.

1 Carruagens:

Blogger PCS said...

Não concordo minimamente.
É mais a Divina comédia. Agora só falta o filme do género "evita".

terça-feira, dezembro 12, 2006 6:30:00 da tarde  

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