segunda-feira, dezembro 11, 2006

Camera Obscura

Patrick Geddes num dos seus bizarros exercícios com as duas metades da sua face.

Hey Lloyd, I'm ready to be heartbroken - Camera Obscura

"Nenhum urbanista admitirá ser um simples construtor de paralelogramas, um simples desenhador de perspectivas, mas terá de trabalhar muito e arduamente antes de estar em condições de expressar, como o faziam os antigos constructores, a alma das nossas cidades."
Patrick Geddes (1915) Cities in Evolution.

Julgo que terá sido através deste post no Canhoto que o vídeo desta canção dos Camera Obscura se popularizou em muitas moradas da blogosfera. A música é sensacional, diga-se, combinando o ritmo e o ambiente de uma melódica canção pop perfeita com a referência a um outro tema de um ícone do princípio de 90 – Lloyd Cole.
Contudo, como verão, o que me leva a escrever é sobretudo a relação entre a nacionalidade e o nome da banda que compôs tão deliciosa melodia com o senhor barbudo que aparece quadruplicado na figura acima.
A banda é escocesa, nada que nos deva surpreender, uma vez que de lá nos chega do melhor que se fez em música nos últimos anos: Belle & Sebastian, Primal Scream, Franz Ferdinand, Delgados ou os revolucionários Jesus and Mary Chain, entre tantas outras.
O nome – Camera Obscura – também não será surpresa para a maioria. O objecto – basicamente uma caixa com um buraco extremamente pequeno por onde penetra a luz – terá sido inventado por volta do século XI por um muçulmano (Ibn Al-Haytham) e foi introduzido na cultura europeia, como auxiliar para a pintura por Della Porta, na transição do século XVI para XVII, tomando a forma de um antepassado da máquina fotográfica.
Mas foi numa mansão do século XVII, em Edimburgo, que a Camera Obscura se tornou popular na Escócia, graças a Maria Theresa Short que, em 1855, lá montou uma exposição de instrumentos científicos, onde se incluía um exemplar da referida peça.
Em 1892, um peculiar biólogo, obcecado por dobrar pequenas tiras de papel, comprou o edifício. Patrick Geddes não só era conhecido como professor excêntrico na Universidade de Dundee e por ter trabalhado nos mais remotos destinos (Palestina ou Índia, por exemplo) na área do planeamento urbano, como por se rodear das mais proeminentes personalidades. Como exemplo entre muitas, encontrava-se Darwin (que terá dito a Geddes quando se conheceram: "I have read several of your biological papers with very great interest, and I have formed, if you will permit me to say so, a high opinion of your abilities..."), de quem Geddes se sentia um continuador; Einstein (que rasgava a Geddes os maiores elogios: "I have heard much praise from my Jewish friends concerning Mr. Geddes’s work and personality. All who know him admire and honor him highly"); ou discípulos como Mumford para quem Geddes era: "one of the truly seminal minds the last century produced: a philosopher whose knowledge and wisdom put him on the level of an Aristotle or a Leibnitz".
Geddes, para além das mais bizarras experiências, de um certo mau-feitio quando contrariado e de falar pelos cotovelos sobre qualquer assunto, era um homem à frente do seu tempo, tendo enunciado alguns dos princípios que só agora o mundo, as cidades e o homem parecem querer introduzir na sua abordagem ao território. Para Geddes, agir sem conhecer histórica, geográfica e socialmente o território era um erro tremendo. Transformar os espaços urbanos sem valorizar o legado arqueológico do crescimento orgânico da cidade, a sua identidade e a sua imagem para os cidadãos, assim como a sua ligação à envolvente regional, era um verdadeiro crime.
Por isso, a velha mansão seiscentista de Edimburgo e o seu recheio (onde se incluía a Camera Obscura) tanto interessaram a Geddes que com eles montou um observatório e um museu da capital escocesa (na altura, uma insalubre, perigosa e suja cidade, consequência da Revolução Industrial).
Para tal desígnio, Geddes montou um percurso no interior da torre da mansão (a Outlook Tower) que deveria começar no seu ponto mais elevado para que se pudesse contemplar a vista sobre a cidade e a sua envolvente. Seguidamente, os visitantes passariam para a Camera Obscura onde, graças às potencialidades do mecanismo, lhes seria oferecida uma perspectiva diferente sobre a mesma realidade. Depois, o visitante era conduzido a uma sala escura onde teria direito a uma cadeira para que pudesse meditar sobre o que havia visto. Posteriormente, o visitante desceria a torre encontrando em cada andar uma exposição que alargava as fronteiras geográficas da anterior. A primeira sobre Edimburgo, a segunda sobre a Escócia, a terceira sobre a Europa e a última sobre o mundo.
O seu conhecimento da biologia e a sua sensibilidade geográfica eram claras. A sequência de contrastantes experiências físicas, como a subida da escadaria em espiral, a vista panorâmica infinita sobre Edimburgo, a passagem para a escuridão da Camera Obscura e para a minúscula sala de meditação, ofereciam ao visitante um conjunto de experiências visuais que dramatizariam a visita e inebriariam o próprio visitante, na descoberta de si e da sua cidade.
Geddes, muito antes de qualquer outro, percebeu a importância da herança patrimonial e da necessidade da compreensão dos mecanismos que no passado haviam construído as cidades genuínas (do desenho orgânico, dos materiais locais e da relação com a região envolvente), mas, acima de tudo, da forma como a observação cuidada do espaço que vivemos nos ajuda a entender o nosso próprio comportamento com o território e com a vida.

A ler/ver por aí:
1 - No
A Baixa do Porto: este pormenor, referido por Cristina Santos, na entrevista de Rui Rio; e este texto de TAF, contestando a defesa intransigente de JPP a Rio.
2 - Dar os parabéns a um
blog portista por esta vitória. Não há dúvida, o FCP ganha em todas as frentes! (farei, noutro dia, um post sobre estes resultados).
3 -
Esta observação no sempre interessante Klepsýdra.
4 -
Esta fotografia sensacional no Porto Daily Photo. Ainda ontem me lamentava à Mica do facto de não ter a máquina comigo naquele momento.
5 -
Este lamento. Mudam-se os tempos...

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3 Carruagens:

Anonymous Anónimo said...

Grande Patrick Geddes! Entre muitas outras (muito importantes) coisas, convém lembrar que terá sido o percursor da hoje dita reabilitação urbana (tão antes dos restauros dos centros históricos italianos e das duvidosas SRU's...)

terça-feira, dezembro 12, 2006 12:22:00 da manhã  
Blogger PCS said...

Mais uma grande aula de história.
A música é boa (acho que já os conhecia há mais tempo).

terça-feira, dezembro 12, 2006 6:35:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

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